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Antes eu viatudo.
Hoje eu viaduto.

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Sigo minha militância-crônica pelo respeito ao básico direito à acessibilidade.

Aquelas propagandas de banco, com musiquetas suaves, sorrisos largos, bichinhos muito fofos e abraços emocionadíssimos só engana àquele tipo de gente que ainda acredita em papai Noel. Estamos carecas de saber que eles nos esfolam até a alma. Ou melhor, até o último centavo, pois alma não tem liquidez e por isso não lhes interessa. Não vou gastar papel nem tempo para chutar cachorro morto.

Toda vez que vou à agência do Itaú, uma que fica ao lado da igreja da matriz, saio de lá decidido a escrever uma crônica. Depois as miudezas do cotidiano acabam me chamando, me acalmo, tenho que buscar filho na escola, por água no filtro, responder um e-mail e a coisa esfria. Nessa semana foi diferente. Por isso estou aqui.

Não existe acesso sem escada nessa agência do Itaú no largo da matriz. Para quem é portador de necessidades especiais, como eu, que sofro de esclerose múltipla há vinte e três anos e caminho com o auxílio de duas bengalas, isso é sim um caso revoltante.

Até semana passada, tinha um adesivo de cadeirante numa porta de vidro na entrada lateral pela rua Barão de Itaim. Só que a porta ficava trancada. Por isso, o infeliz, no caso eu, que desejasse utilizá-la, deveria ficar batendo no vidro até que alguém, lá dentro, escutasse. Aí colava meu rosto no vidro e ficava berrando que queria entrar. Óbvio. Aí então alguém, lá de dentro, fazia um sinal para eu esperar. Mal sabia que já esperava há mais de cinco minutos, e sob o sol escaldante desta cidade. Aí aquela boa alma ia procurar com quem estavam as chaves. Mais cinco minutos torrando sob o sol. Só então alguém abria a porta e sorria para mim.

- Prontinho, senhor.

Na última vez que tive o desprazer de ir até a tal agência, descobri que tinham retirado o tal adesivo de cadeirante da porta lateral. Acho que resolveram assumir que estão pouco se lixando para essa frescura de acessibilidade.

Então, a duras penas, entrei na agência pelas escadas de degraus larguíssimos. Depois de encerrado meu assunto com minha gerente, disse a ela sobre a falta de acessibilidade da agência. Ela então me respondeu que da próxima vez bastaria eu fazer uma ligação a ela para que abrisse a porta lateral para mim. Simples assim. Ela abriria a porta lateral para eu entrar. Bastaria um telefonema. Quanta gentileza.

Essa gente não entende nada. Não mendigo favores, exijo direitos! A agência tem que oferecer, a mim e a todos os portadores de necessidades especiais, condições para que possamos entrar e sair de lá para que eles nos esfolem com seus juros escorchantes e depois nos apertem a mão com aqueles sorrisos pré-pagos.

Por incrível que pareça, acessibilidade é uma conquista básica ainda não assegurada. E não estou falando de um restaurante de fundo de quintal, estou falando da maior instituição bancária do hemisfério sul.

Quem cuida dessa vergonha? Qual instância do poder público deveria se ocupar disso? Alguém sabe? Eu não sei. Escrevo para aplacar minha ira santa. Pronto. Já estou melhor.

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Até tu, SESC?

Semana que passou fui para Sampa participar de um curso promovido por uma querida amiga. “Ensaios ignorantes” era o nome provocante do curso. Mas topei com a ignorância bem antes de se iniciar o curso. A vida é ainda mais provocante.

Ao me aproximar de mais uma unidade do SESC, local dos tais “Ensaios ignorantes”, brincava com minha companheira sobre as chances de ter meus direitos à acessibilidade respeitados:

- Você verá, dizem que o SESC Interlagos é uma maravilha! Vamos encontrar uma vaga reservada para deficientes bem na porta de acesso ao teatro. Tenho certeza. E ao tirar meus pés do carro, serei interceptado por duas gueixas que prontamente irão tirar meus sapatos e meias e me aplicar uma massagem relaxante nos pés. Você vai ver que beleza.

Chegamos.

- Desculpe senhor, aqui não pode parar. A vaga reservada para cadeirantes é ali atrás. Apontou com o dedo na direção de uma daquelas placas azuis indicativas de vagas para cadeirantes. Ôps, ao invés das gueixas um segurança. Já começou mal. A vaga ficava a cerca de cinquenta metros do acesso ao prédio. Um pouco sem sentido. O caminho era de paralelepípedos. Muito sem sentido. Garoava e o trajeto da vaga especial até a entrada do prédio era descoberta. Qual o sentido disso? A coisa passava da negligência ao sadismo. Longe, escorregadio e sem abrigo contra chuva.

Até tu, SESC?

Cheguei. Ufa!

- Por favor, onde é o teatro para os “Ensaios ignorantes”?

- É só descer as escadas. O teatro fica lá embaixo.

- Elevador?

- Não temos. Infelizmente. Mãozinhas unidas junto ao peito e sorrisinho simpático:

- Não temos.

Lá fui eu. Atenção, cautela, equilíbrio, sensatez, humildade e as bengalas.

Cheguei ufa! Mas se desci tudo isso, terei que subir!

Ainda bem que entre um evento e outro teria os “Ensaios ignorantes” para eu me recompor. O SESC sempre promove eventos tão interessantes.

Apenas sentei-me na poltrona confortável do teatro e ponderei: Se até o SESC que é o baluarte do “politicamente correto”, um militante da batalha civilizatória no país, sempre tão atento às pluralidades e aos princípios tão democráticos da república não respeita o mais básico requisito da acessibilidade, então estou frito.

Por outro lado, esse é um forte indício que continuarei tendo muitos temas para escrever novas crônicas. Posso reuni-las e inscrevê-las nalgum concurso literário promovido pelo SESC. Eles promovem tantos!

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Gilmar atirou seu corpo cansado na cama e ali ficou olhando para o teto. Marisa interrompeu o silêncio da cena:

- Quando será que você vai aprender a baixar a tampa da privada?

Gilmar fechou os olhos, é que pensou em fingir que já estivesse dormindo mas Marisa não deu tréguas:

- Nesse mundo machista os homens não respeitam as mulheres.

Sua voz saiu abafada, pois a porta do banheiro estava fechada. Saiu abafada mas forte o suficiente para Gilmar arregalar os olhos e indagar:

- Mas o que tem a ver eu baixar ou não a tampa da privada com machismo?

- É que vocês homens não se preocupam com as mulheres. Agem como se não existíssemos.

Gilmar poderia até concordar com a reclamação de Marisa, mas seu censo lógico não permitiu:

- Qual a relação entre a tampa da privada e o machismo?

Marisa saiu do banheiro para apanhar uma calcinha em seu armário, aproveitou sua passagem diante da cama onde Gilmar repousava e, parada diante dele, mesmo sem calcinha e com uma toalha enrolada na cabeça, fez uma explanação que esperava fosse definitiva:

- Meu amor, não sou eu quem está dizendo, isso é ponto pacífico, basta você ler alguns artigos de feng-shui. Não se deixa a tampa da privada aberta. A privada vai direto ao esgoto. Deixar a tampa aberta é deixar um canal aberto com o esgoto. Estamos falando de higiene energética, mas você não deve entender isso.

Gilmar tentou entender melhor e, apoiando as mãos no colchão, ergueu o corpo e sentou-se. Estava confuso:

- Você está falando de qual tampa? A vazada ou a de cima?

Por mais que parecesse sem sentido, sua pergunta fazia parte de um raciocínio lógico elaborado. Se Marisa se referisse à tampa vazada é por que deveria estar se referindo às gotinhas de urina que teimam em pingar ali. Essa primeira hipótese era a mais delicada, acreditava Gilmar. Se fosse, a segunda hipótese, ou seja, sobre a tampa de cima, aí então ele estaria salvo, pois estava certo de que isso nada tinha a ver com machismo.

- Estou falando das duas tampas.

Gilmar ficou desnorteado; não tinha se preparado para essa hipótese. Mas Marisa prosseguiu e foi a salvação de Gilmar:

- Estou falando sobre fechar o tampo da privada.

- Ah, então você está se referindo à tampa de cima.

Marisa começava a se impacientar com o que acreditava ser uma provocação. Não era.

- Não dá para fechar a tampa de cima sem fechar a tampa de baixo.

Gilmar percebeu que Marisa elevara o tom e explicou-se, ou tentou:

- Tudo bem, só estou querendo saber se o problema é a questão do feng-shui, a história de fechar a porta para o esgoto.

O tiro saiu pela culatra. Marisa sentiu que Gilmar estivesse debochando dela.

- Olha Gilmar, sei que você não acredita nisso, mas é um estudo, é praticamente uma ciência. Feng-shui é coisa séria.

Marisa voltou ao banheiro, não tinha acabado de se arrumar para dormir.

- Tudo bem, o problema não é a seriedade ou não do feng-shui, a questão é qual a relação dele com o machismo?

A partir de sua ótica cartesiana, toda a questão se resumia à vinculação ou não da questão da tampa da privada aberta com o machismo. A questão em si deixava de ter importância para ele, Gilmar só queria provar a inconsistência lógica da reclamação de Marisa.

- Se o problema em deixar o tampo da privada aberto está relacionado a se deixar aberta uma comunicação entre a nossa casa e o esgoto, então isso afeta tanto a mim quanto a você. Não tem nada  a ver com machismo. Atinge o ser humano independente do gênero.

Marisa falava enquanto escovava os dentes, o que dificultava a compreensão de Gilmar:

- Mas quem deixa a tampa da privada aberta é sempre você, eu vivo baixando tampo de privada, seja em nosso banheiro, no lavabo ou no escritório.

- Tudo bem, mas isso não tem nada a ver com machismo.

Era claro que Gilmar se ofendia muito mais em ser chamado de machista do que de porco.  Marisa não arredava pé, pois era fato que vivia baixando tampo de privada pela casa.

- Mas é sempre você quem deixa a privada aberta. Será que todo homem é assim?

- Você insiste em levar a questão como um sendo ato machista, e não é. Pois, segundo você, a pessoa que deixa a tampa da privada aberta, seja homem ou mulher, está causando mal não só ao companheiro ou companheira, mas a si próprio. Não tem nada a ver com machismo ou feminismo.

Marisa já tinha deixado de seguir o raciocínio de Gilmar, aquilo parecia tramóia premeditada para desviar a questão. Não era, era o resultado do raciocínio reto, lógico e dedutivo de Gilmar

- Eu não entendo por que você não baixa a tampa da privada. Isso é machismo. Deixa que a mulherzinha vá lá e faça.

Agora era Gilmar quem subia o tom:

- Isso não tem nada a ver. Se não baixo o tampo da privada isso não traz prejuízo só a você. Deixo nossa casa ligada ao esgoto e isso afeta todos que moramos aqui, não só você.

- Mas sou eu quem reclamo, você não está nem aí por que sabe que a mulherzinha vem e fecha.

- Não, eu não estou nem aí por que isso não é uma questão para mim.

Gilmar disse isso, levantou-se e foi ao banheiro enquanto Marisa se cobria, já deitada.

- Essa não é uma questão para você por que você é um machista e não pensa na sua mulher.

- Eu nem penso nisso.

- Viu? Então você admite.

Lá do banheiro, Gilmar respondeu gritando mais do que o necessário para ser escutado, o que denotava certa dose de impaciência.

- Eu não admito nada, você mistura tudo, não dá para conversar com você. Você não mantém um foco. Fala de uma coisa depois já está falando outra. Isso não tem nada a ver com machismo. Gilmar disse isso e voltou ao quarto. Àquela altura da conversa e da noite, Marisa já tinha desistido da discussão, se dava por satisfeita se tivesse convencido o marido a baixar a tampa da privada toda vez que a usasse.

Marisa deitada, afofou o travesseiro e deitou de costas para o marido.

- Você não quer conversar e o machista sou eu? É o inverso do estereótipo. É a mulher quem não gosta de discutir relação, não o homem. E o machista sou eu.

Marisa foi decisiva em seu próximo argumento:

- Gilmar, você baixou a tampa da privada?

Gilmar levou a mão a cabeça:

- Putz, não lembro.

- Eu lembro Gilmar, você não fechou.

Ao entrar no banheiro Gilmar sorriu; a tampa estava erguida. Fechou-a.

Deitou na cama ao lado de Marisa e fez uma declaração de amor seguida de um pedido formal de desculpas. Foi inútil, pois Marisa já estava dormindo.

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Rita chegou a sua casa totalmente arrasada e seu marido quis saber o motivo.

- Perdi o colar de que mais gostava. Era um que tenho desde a minha adolescência. Usei-o nos momentos mais importantes da minha vida; inclusive em nosso casamento. Procurei em todos os lugares possíveis. Agora mesmo, estou voltando do lugar que era minha última esperança de encontrá-lo, mas não o encontrei. Estou arrasada.

Mario, seu marido, não se conformava com aquela atitude que considerava muito materialista e tentava demonstrar isso:

- Rita, isso é só um colar. É uma coisa. Não é possível que você dê tanta importância assim, a ponto de ficar tão arrasada. Pelo amor de Deus, é um colar apenas. Na vida existem coisas muito mais importantes do que um colar. Tem tanta gente no mundo passando por dificuldades infinitamente maiores do que a simples perda de um colar. Você deveria se envergonhar.

O marido apenas acabou de falar e Rita desandou a chorar ainda mais. Mario só fez piorar a situação. Rita chegava a soluçar. Na hora de dormir, confessou ao marido que o que mais tinha deixado ela triste, nem tinha sido a perda do colar, mas a falta de companheirismo dele. Ao invés de tentar consolá-la ele lhe passou um enorme sermão. Aquilo tinha deixado Rita muito triste e decepcionada.

Mario ficou tão chateado com a confissão de Rita que perdeu o sono e ficou fritando na cama durante toda a madrugada, tanto que acordou com as olheiras escuras.

Mario então decidiu correr atrás do prejuízo. Procurou pelo colar no álbum de fotos de seu casamento, já que não fazia a mais vaga idéia de como ele era. Isso ele manteve em segredo para não piorar ainda mais as coisas. Espantou-se ao ver como Rita era muito mais moça e bem mais magra naquela época mas encontrou uma foto onde o colar estava muito visível. Bem verdade, não achou nada demais no colar, mas como não era para ele e sim para ela, separou a foto com todo cuidado e guardou o álbum. Passou a andar com a foto no bolso, visitou inúmeras joalherias, sites de busca, chegou até a contratar os serviços de um detetive particular para encontrar o tal colar. Estava decidido a reparar sua grosseria, insensibilidade ou sei lá como Rita havia qualificado sua atitude daquele dia.

Já tinham se passado dois meses quando, finalmente, a dona de uma das incontáveis joalherias com quem Mario tinha deixado a foto, telefonou informando ter encontrado uma peça quase idêntica. Mario cancelou seus compromissos, desmarcou reuniões e foi correndo a tal joalheria.

Realmente o colar era muito parecido com o da foto. Quase idêntico nas palavras da dona da joalheria. Mal podia esperar para ver a felicidade de Rita quando abrisse o pacote e encontrasse o colar. Aproveitou que já tinha cancelado seus compromissos para ir até a joalheria e não voltou ao trabalho, foi correndo para casa.

Rita se surpreendeu ao ver Mario chegar tão cedo. Ele foi logo explicando:

- Vim para casa mais cedo por que não agüentei esperar. Dito isso estendeu as mãos na direção de Rita com o pacote do colar.

Rita sorriu, apanhou o pacote e, à medida que se encaminhava ao sofá, foi fazendo aqueles gracejos tão típicos nessas ocasiões:

- Ôpa, um presente. Que beleza. O que será que é? Vamos ver se adivinho. Rita pesou o presente na mão, cheirou, apalpou e sentou-se para abri-lo.

- O que será que é? Estou curiosa. Vamos ver o que é. O que será?

Mário estava muito contente e seu largo sorriso demonstrava isso. Durante todo o trajeto até a sua casa foi fantasiando a reação de Rita quando visse o colar, Será que choraria de novo? Provavelmente sim. E depois do choro? Talvez pulasse em seu pescoço e o enchesse de beijos e juras de amor. Ou será que lhe prepararia um jantar à luz de velas, com seu prato preferido, seguido por uma noite de amor inesquecível? Mario foi imaginando tudo isso até chegar a sua casa.

Finalmente Rita abriu o pacote. Tomou o colar em suas mãos, afastou-o do rosto, olhou bem para ele, passou pelos dedos como fosse um terço e após um breve silêncio disse:

- Nossa Mario, mas que tremenda falta de originalidade. Quando éramos namorados você costumava ser bem mais criativo.

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Precisava fazer hora, deixar o tempo passar até meu próximo compromisso. Lembrei-me ter prometido enviar alguns cartões postais de Itu a uma amiga minha lá em São Paulo. Estava perto do Shopping e decidi passar lá. Fui até a banca logo na entrada e, apesar de Itu ser uma estância turística, lá não tinha cartão postal da cidade. O rapaz me informou que numa papelaria dentro do shopping eu encontraria os cartões. Olhei a hora, avaliei se valeria a pena e se não correria o risco de comprometer o meu próximo compromisso. Decidi entrar. Como a papelaria era um pouco longe para mim, que tenho limitações físicas por conta da esclerose múltipla, decidi pegar a cadeira de rodas disponibilizada pelo shopping.

Aqui faço um pequeno desvio para contar ao leitor que já precisei dessa cadeira antes e minha experiência rendeu uma crônica aqui mesmo nessa coluna. É que a cadeira é muitíssimo precária. A crônica que narra minhas desventuras com essa cadeira chama-se “Aula de musculação grátis” e foi publicada em 21/10/10. A referida crônica causou uma pronta reação dos responsáveis pelo shopping e isso me fez acreditar que o problema seria resolvido como eles mesmos se comprometeram a fazer na ocasião.   

Assim que me sentei na cadeira pude notar que continuava a mesma porcaria da vez passada. Efetivamente a administração do shopping não fez nada além de espernear contra a crônica. Mais uma vez a cadeira de rodas me proporcionou um ótimo exercício forçado para peitoral, tríceps e musculatura abdominal. O esforço para fazer aquela geringonça andar é tanto que fiquei totalmente focado na cadeira. De relance notei um grupo de senhoras tomando café sentadas em volta de uma mesa no corredor. Reconheci uma tia minha, acenei efusivamente e desviei meu caminho para saudá-la. O percurso, embora curto, me foi penoso. Ao aproximar-me, notei que as senhoras mantinham uma atitude gentil e receptiva muito embora parecessem não entender muito bem o motivo da minha aproximação. Ao chegar mais perto notei que não se tratava da minha tia. Cumprimentei-as, falei rapidamente sobre meu engano e segui rumo à papelaria. À essa altura re-avaliei a pertinência daquele esforço que empreendia para comprar os tais cartões. Como já estava no meio do caminho decidi prosseguir, sem muita convicção, confesso. Finalmente, avistei a papelaria ao lado do cinema. O esforço tinha valido a pena. Entrei, escolhi vários cartões que o atendente gentilmente colocou dentro de um saco plástico. Paguei, depositei o saco plástico com os cartões sobre meu colo, respirei fundo e retomei o caminho contrário.

Já sentia meu peitoral e abdominal cansados. Faltava pouco e enchi-me de brios. Força, pensava calado, força. Meu empenho era tanto que só enxergava meus movimentos e a melhor maneira de torná-los mais eficientes. A cadeira é realmente medonha. Tão compenetrado lembrei que novamente encontraria aquele grupo de senhoras tão simpáticas. O que fazer? Passar batido, compenetrado em meu esforço ou ralentar o ritmo e saudá-las novamente? Quem sabe uma nova menção à minha tia? Para meu alívio a roda já estava desfeita. Agora faltava pouco. Não sei se em função de meu cansaço ou se da precariedade da cadeira de rodas, ela começou a puxar para a direita como fazem os carros com pneus descalibrados. A partir daquele ponto seria preciso mais esforço ainda para mantê-la no prumo e na direção desejada.

Finalmente cheguei ao local onde tinha estacionado o meu carro. Conferi no relógio que não tinha me atrasado para meu próximo compromisso. Tinha valido o esforço, afinal tinha conseguido comprar os cartões. Ôps, cadê eles? Devo tê-los derrubado pelo caminho. Entrei no carro muito chateado mas me absolvi. Se perdi os cartões pelo menos ganhei o assunto desta crônica.

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Andei quase dois meses sem escrever aqui no blog. Retomo publicando a última crônica de minha coluna fixa no site itu.com.

Declaração planetária dos Deveres humanos

Já faz tempo que a Declaração Universal dos Direitos Humanos tornou-se bandeira e tema de discussões acaloradas, principalmente quando se fala de violência. Aí vem aqueles truculentos falar em direitos humanos dos bandidos e das vítimas, como se não estivessem todos englobados na categoria “humanos”. Mas não é sobre esse debate que gostaria de escrever.

É que li uma frase do escritor José Saramago e minha identificação foi tão grande que me obriguei a tentar passar essa idéia adiante. Ele diz que a humanidade fala muito dos direitos humanos, mas se esqueceu de falar sobre os deveres humanos. Ôpa, já acendeu uma luzinha indicando a existência de sabedoria por perto. Logo adiante, Saramago afirma que esses são sempre deveres em relação ao outro, sobretudo. Mais adiante, ele é ainda mais claro: “Temos que acreditar nalguma coisa, e sobretudo temos de ter um sentimento de responsabilidade coletiva, segundo o qual cada um de nós seja responsável por todos os outros.” Quanta lucidez.

Então fiquei pensando, em comparação à declaração universal dos direitos humanos, o que seria essa declaração dos deveres humanos. Comecei rebaixando-a de universal para planetária. Muita prepotência falar em declaração universal à partir desse minúsculo planeta situado num sistema solar na periferia de uma entre cem milhões de galáxias. Sejamos menos megalomaníacos e vamos de declaração planetária, coisa que já é muito, tanto que as guerras não cessam nunca. Evidente que o mandamento número um seria esse do Saramago, esse que fala da responsabilidade coletiva, segundo a qual cada um de nós é responsável por todos os outros. Teríamos que encontrar uma forma mais concisa do tipo:

1. Somos todos responsáveis por todos.

Ficou sem dúvida menos poético, mas tem mais cara de documento. Aí fiquei pensando nos outros deveres. Pensei muito e só encontrei um. Seria algo do tipo:

2. O ser humano não deve fazer ao próximo aquilo que ele não gostaria que fizessem a ele.

Pronto. Uma declaração simples, concisa, com apenas dois princípios. Depois fiquei imaginando se seríamos capazes de cumprir esses dois únicos princípios da Declaração Planetária dos Deveres Humanos. Tão pouco, tão simples. Acredito que consigamos. Então agora seria preciso dar a esses dois princípios o mesmo estatuto que a Declaração Universal dos Direitos Humanos conquistou.

Sei que almejar a isso é ridículo mas sou palhaço e palhaços são ridículos. E já que comecei citando Saramago concluo com ele: "...sem responsabilidade, talvez não mereçamos existir."

 

25/12 - C33-Ivo sempre temeu ser um cara medíocre e nunca realizar nada q o distinguisse. Fazia tempo q considerava a ideia de matar alguém, pq não?

23/12 - C32-Ivo viu sua vida passar na tela da mente como 1 filme. A infância classe media o pai alcoólatra, o sonho de ser médico e seu gde medo.

22/12 - C31-Preciso saber p/ onde levaram Ida. PH: foi levada a um abrigo da prefeitura. Preciso saber o q vc fazia no apê de Ana na noite do crime?

20/12 - C30-Ivo voltou p/ casa. O irmão de Ida o esperava. Fez ameaças, deu 2 horas p/ Ivo trazer a menina de volta. Ivo voltou a delegacia. PH riu

18/12- C29-Seqüestro? Cárcere? Dei guarida p/ menina, fui solidário s/ saber q isso era crime. Vou sair daqui bem agora. PH sorriu. Nos vemos.breve.

16/12 - C28- Pq ñ disse nada s/ a menina no interrogatório? Terei q prendê-lo p/ sequestro e cárcere privado. O assassinato da velha fica p/ depois

15/12- C27-Conheci a menina na rua e a levei p/ casa, tive pena. Ficou em casa + de mês e depois fugiu. PH: talvez seja 1 bom álibi, me acompanha?

14/12 - C26-O tira conta q Ida foi encontrada dormindo na porta do apê de Ivo. Ela estava sozinha e dizia ser filha de Ivo. PH: O q me diz Sr Ivo?

13/12- C25-O interrogatório foi interrompido p/ 1 tira q trazia Ida à delegacia. "Olha aqui Dr, a menina diz q é filha do rapaz aí". PH se engasga.

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Fico imaginando como será a vida de quem for usar avião durante a copa do mundo em 2014. Se já vivemos um verdadeiro caos cada vez que precisamos usar os aeroportos agora, na copa, com quase um milhão de turistas na terra Brasilis, será mais fácil viajar de jegue.

Aliás, a Infraero a ANAC e a TAM já tem experiência de sobra para lidar com esse tipo de animal. Refiro-me aos jegues, parentes dos cavalos, primo das vacas. Para quem acha que estou exagerando, conto o que se passou comigo, em Congonhas, no fim de semana passado.

Fui convidado a participar da cerimônia de premiação do IV Concurso literário da UFF (Universidade Federal Fluminense) que aconteceria no campus da universidade em Niterói. Os organizadores do concurso foram extremamente gentis e carinhosos e ofereceram transporte aéreo e hospedagem aos finalistas do concurso. Fui.

Cheguei ao guichê da minha companhia aérea para fazer o chéquim, já que o chequão a gente faz quando compra a passagem. Solicitei uma cadeira de rodas. Fui prontamente acomodado numa cadeira, é verdade que tive que dar uma reboladinha para fazer meu quadril passar entre os braços da cadeira. Não é meu quadril que é largo, era a cadeira que era ridícula. O atendente tirou-me da região do chequim e colocou-me num canto, a parte. Fiquei incomodado com a solução e tratei de procurar as rodas da cadeira com as mãos a fim de me movimentar e sair daquela posição de escanteio na qual fui colocado. Apalpo daqui, apalpo dali e surpresa: não encontro roda alguma. A cadeira de rodas não tinha rodas, pelo menos não aquelas rodas grandes que emprestam o nome à cadeira de rodas. Estava devidamente deixado de lado e sem possibilidade de me locomover caso fosse totalmente dependente de uma cadeira de rodas. Ergui-me da cadeira e levei meus documentos indispensáveis ao tal chequim me apoiando em minha bengala.

Feito o chequim um funcionário da companhia aérea, muito solícito, transportou-me, naquela cadeira, até ao local do embarque. Após passar pela revista fui levado até uma espécie de baia, cercada por cordas de isolamento. Era um retângulo de aproximadamente 3x10 metros. Estacionou minha cadeira e me orientou a aguardar o embarque que ocorreria dali a umas duas horas. Na minha frente quatro ou cinco senhoras idosas e um senhor também idoso. Todos desacompanhados aguardando o embarque. A tal baia ficava bem no meio da passagem dos cidadãos “normais”, era uma espécie de mostruário ou vitrina de invalidez, por idade ou por motivo de saúde no meu caso.

Como ainda faltava muito tempo para o embarque decidi locomover-me pelo saguão, dar um rolê, bisbilhotar uma livraria, beber um café expresso e esse tipo de coisa que fazemos em aeroportos enquanto esperamos nosso embarque.

Ato-falho levei as mãos à lateral da cadeira em busca das rodas. Ôps, que idiota! Tinha me esquecido. Levantei-me, desencaixei o quadril com certo esforço, a cadeira levantou junto, mas logo cedeu e soltou-se das minhas ancas estreitas. Peguei minha bengala e nova surpresa: não tinha saída naquele retângulo cercado por cordas. Sob os olhares incrédulos dos demais confinados, liberei a corda de um dos lados do retângulo quando fui abordado por uma funcionária da companhia aérea:

- Pois, não, o que senhor deseja?

- Eu desejo tomar um café, passear e principalmente sair dessa baia aberta à visitação pública na qual fui colocado.

- Desculpe...

Como a funcionária não me entendeu fui mais direto e conciso:

- Quero sair daqui.

- Ah, mas o senhor não pode...

Nem deixei completar as balelas que iria dizer:

- Claro que vou sair, você deve estar maluca.

- Mas a passagem do senhor ficou com o funcionário. Os passageiros especiais têm que esperar aqui.

Espichei o pescoço para dentro do balcão e vi uma passagem, num ato de rebeldia, meti a mão lá dentro, peguei a passagem – depois conferi e constatei que de fato tratava-se da minha passagem - e sob o olhar estupefato da funcionária, liberei a corda de isolamento e, antes de recolocá-la no lugar, olhei para meus companheiros de vitrina da invalidez como que os convidando a um ato de rebeldia. Ninguém se mexeu. De certo haviam sido bem orientados. Rompi os grilhões da Infraero. Estava livre. Caminhei e lá de fora pude contemplar a cena medonha daqueles senhores expostos à visitação pública, ilhados, confinados num cercadinho como se fossem bebês ou pior, como se fossem porcos ou vacas num curral.

Então isso é tratamento especial? Esse povo precisa tomar vergonha na cara.

A tempo: embarquei, compareci a cerimônia de premiação e fui classificado em primeiro lugar no concurso de contos.

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Esta crônica ficou em primeiro lugar no concurso de Literatura promovido pela Universidade Federal Fluminense (UFF) , que teve como tema “50 Anos... E Agora?”

O range-range da velha cadeira de balanço só cessava quando dona Benedita pegava no sono. Era uma velha casa com piso de tábuas. Tudo rangia por ali.

- Dona Benedita, tem um homem lá no portão.

- Então pode mandá-lo embora, pois não estou esperando ninguém.

- Ele está forçando o portão.

- Solta os cachorros.

- Agora está mexendo na corrente que fecha o portão.

- Solta os cachorros já falei.

- O homem está chacoalhando o portão.

- Chama o Teodoro.

- Hoje é domingo, folga do Teodoro. Esqueceu? O homem está tirando o terno.

- Chama  a polícia, deve ser um tarado.

- Ele está tentando subir no portão.

- Tomara que se esborrache no chão.

- Ele passou uma perna por cima do portão. Agora está sentado lá em cima.

- Deixa ele, se reparar bem vai ver que aqui não tem nada que possa interessar nem a ele nem a ninguém. Já-já ele se enjoa e vai embora. É sempre assim. Me traz um café.

Sentado no portão o homem percebia que já não era mais o mesmo. Quantas vezes tinha pulado aquele portão? Agora não encontrava coragem para o salto.

- Esse café está muito fraco e além de tudo está muito doce.

- Mas foi a senhora mesma quem deu a ordem para fazer o café mais fraco, esqueceu? O homem continua sentado lá em cima do portão.

- O Teodoro deveria ter eletrocutado esse portão.

- Mas a senhora nunca vai esquecer essa história?

- Que história?

- Já faz tanto tempo... A senhora deveria passar uma borracha e seguir a vida.

- O que você entende da vida? Eu tinha vinte e cinco anos, a idade que você tem hoje. Era uma menina quase...

- Olha, agora que o homem no portão tirou o chapéu deu para ver que os cabelos dele são todos branquinhos. É um senhor.

- Esse café além de fraco e sem açúcar agora já está frio.

- Eu vou esquentar para a senhora.

-Não. Quantas vezes já falei que não tomo café requentado.

- Está bem, então vou passar outro.

- Não quero. Quem está no portão?

- Não sei. É um senhor que nunca vi antes. A senhora não quer ir dar uma olhada?

- Não.

O homem lá no portão, ao sentir que o cão já não era uma ameaça, passou, com dificuldade, a outra perna para o lado de dentro do portão.

- Nossa, o homem pulou. Que perigo. Um senhor de idade fazendo essas estripulias...

O homem atravessou os quase cinqüenta metros que separavam o portão da varanda  ajeitando seu terno. Com o chapéu batia nos braços e nas pernas a fim de limpar o pó da estrada de terra que levava até a chácara de Dona Benedita.

- Ai, eu estou ficando nervosa. O homem vem vindo para cá.

- Vai lá dentro passar um café e traga duas xícaras.

- Mas a senhora disse que não queria.

- Não discuta e faça o que eu estou mandando.

Dona Benedita não chegou a ficar um minuto só.

- Dita? Sou eu.

- Por que você voltou?

- Por que não se vira? Como pode saber quem eu sou? Você está com o mesmo cheiro de lavanda.

- E você com a mesma voz, só um pouco mais velho.

- E as crianças?

- Crianças?

- Você deve ter notícias deles.

- Puxaram ao pai. Sem notícias.

- Dita,o tempo passou, somos pessoas diferentes.

- Eu sou a mesma pessoa. Continuo esperando o dedal que você foi comprar.

- Puxa vida,o dedal! Nem me lembrava. Passou muito tempo.

- Vá embora. Você sabe muito bem como sair sem fazer barulho ou deixar vestígios. Já fez isso uma vez, tem prática em abandonar as pessoas. Vá.

- Dita, isso foi a cinqüenta anos, de lá para cá...

- De lá para cá nada aconteceu. Nada mudou.

- Se nada mudou então você ainda gosta de mim, pelo menos um pouquinho.

- Eu não gosto de você, eu te amo como sempre te amei. As suas roupas estão no teu armário como há cinqüenta anos. Não mexi em nada. A tua cama está arrumada e seu roupão continua no banheiro. Tudo como estava.

O homem entrou na casa e quase derrubou o café que a moça levava para a varanda.

- Onde ponho o café, Dona Benedita? Não vai me dizer que esse homem é o tal.

- Claro que não vou te dizer nada. Põe o café aí e entra.

A menina entrou e quase trombou com o homem que vinha saindo com uma camisa furada nas mãos.

- Essa camisa está toda descosturada embaixo do braço.

- Desculpe, não pude costurar, pois você não trouxe o dedal.

- Isso faz cinqüenta anos Dita.

- Eu sei, pois mastiguei cada segundo desses cinqüenta anos.

- Eu também tinha vinte e cinco anos, era um rapaz, quase um moleque.

- Um moleque. Um moleque lindo. Todo queimado de sol, as mãos ásperas e as unhas grandes sujas de terra. Nunca soube lavar as mãos direito.

- Eu quero te olhar Dita, vira para mim.

Benedita ajeitou o corpo na cadeira de balanço e dando quase um salto sentada com as mãos agarradas nos braços da cadeira, girou a cadeira cento e oitenta graus. Permaneceu sentada agora de frente para o homem.

- Fiquei te esperando. Todo mundo falava que eu era uma sonhadora, que você nunca voltaria. “Imagine se um homem que sai para comprar um dedal e simplesmente desaparece por quase cinqüenta anos sem dar nenhuma explicação vai voltar para casa. Claro que ele não volta Benedita”. Eu tinha certeza que você voltaria. Sabia. Te esperei.

- Acontecem coisas na vida da gente.

- Acontecem. Quando você menos espera elas acontecem.

- Esse café é fresco ou é jeito dele.

- Fresco.

A menina escutava tudo atrás da porta da sala. Estava curiosa e achava que poderia escutar algum detalhe novo, alguma coisa que Dona Benedita tenha omitido ou esquecido de propósito.

O homem serviu o café para ele e para ela.

- Obrigada.

- Nada.

- Toma que o café vai esfriar.

- Eu tinha medo que as coisas que você escrevia nas cartas fossem verdade. Que você estava ótima, feliz da vida, radiante, vivendo uma vida nova, cheia de amigas entrando e saindo da casa.

- Era assim que eu queria que fosse.

O homem arrastou uma espreguiçadeira para perto da cadeira de balanço onde estava dona Benedita.

- Qual a tua explicação?

- É uma longa estória.

- Pretende ficar por quanto tempo?

- Até morrer.

- Continua fumando dois maços por dia?

- Sim.

- Então não vai ficar por muito tempo. Quero saber de tudo. Tim-tim por tim- tim. Quero ir nesses programas de auditório e responder tudo sobre sua vida.

- É uma estória bem longa. São cinqüenta anos.

- Temos todo o tempo do mundo.

- Acha que dá para a gente recomeçar?

- Tenho medo que a gente já não se saiba mais.

- Podemos aprender de novo.

- Espero que aprendamos melhor nessa segunda chance.

- Fica como um intervalo.

- Um intervalo?

- É. O tempo passou e aqui estamos nós de novo. Cinqüenta anos...e agora? Espero que você não me envenene à noite.

- Não posso te garantir nada. Vai depender de você.

Nero voltou a latir para alguém que passava na frente do portão e a menina voltou para a cozinha.

Esta crônica ficou em primeiro lugar no concurso de Literatura promovido pela Universidade Federal Fluminense (UFF) , que teve como tema “50 Anos... E Agora?”

Meu conto "Cinquenta anos...e agora?" foi classificado em primeiro lugar no IV concurso de literatura da Universidade Federal Fluminenese (UFF).

Abaixo um tiragosto e o link para quem quiser a refeição completa.

50 anos... e agora?

"O range-range da velha cadeira de balanço só cessava quando dona Benedita pegava no sono. Era uma velha casa com piso de tábuas. Tudo rangia por ali.

- Dona Benedita, tem um homem lá no portão.

- Então pode mandá-lo embora, pois não estou esperando ninguém.

- Ele está forçando o portão.

- Solta os cachorros.

- Agora está mexendo na corrente que fecha o portão.

- Solta os cachorros já falei.

- O homem está chacoalhando o portão.

- Chama o Teodoro.

- Hoje é domingo, folga do Teodoro. Esqueceu? O homem está tirando o terno.

- Chama a polícia, deve ser um tarado."

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Parece que a gente passa a vida sendo confrontado com números e avaliações. Notas na escola, rankings do seu time do coração, número de medalhas ganhas ou perdidas desde a infância, acervo de livros e CDs, graus de especialização profissional e por aí vai.

Outro dia li na capa de uma revista que folheava num consultório médico: Trezentas e cinqüenta dicas para você arrasar nesse verão. Sempre concebi “dicas” como pequenas pérolas; toques preciosos, segredos compartilhados entre grandes amigos, pequenas gotas de sabedoria passadas de pai para filhos. Trezentas e cinqüenta dicas me pareceram um assombro.

Estamos em época de natal e o apelo por mais consumo fica ainda mais truculento. Em casa fizemos uma limpeza nos brinquedos do Léo e nos espantamos com o mundaréu de coisas que ele já tem com apenas cinco anos de idade.

Ligo o rádio e ouço boletins atualizando notícias a cada trinta minutos.

Há pouco nos mudamos para Itu e à medida que encaixotávamos nossas coisas íamos nos espantando: será que a gente precisa mesmo de tudo isso pra viver?

Diariamente fico preso em engarrafamentos abissais e leio nos jornais que a indústria de automóvel vive batendo recordes de produção.

Outro dia apresentei meu espetáculo de palhaço em uma grande empresa em São Paulo Fazemos um jogo no qual recebemos frases escritas colhidas junto à nossa platéia. Uma delas dizia: “vou ficar rico até completar vinte e cinco anos” e outra “quero juntar um milhão de dólares antes dos trinta anos”.

Tiramos do planeta tudo que conseguimos, até nas profundezas do solo enfiamos sondas para sugar mais e mais riquezas. Mineiros morrem soterrados em minas espalhadas pelo mundo.

Isso tudo me remete à tragédia de Sísifo, herói condenado pelos deuses à tarefa inesgotável de todos os dias carregar uma enorme pedra até o topo de um penhasco e vê-la despencando ribanceira abaixo.

Noite dessas, olhei para o céu e ele estava estrelado. Sei que são cem milhões de estrelas só em nossa galáxia. E nossa galáxia é uma perdida entre outros cem milhões de galáxias. Saber que toda aquela imensidão não tem dono e nunca poderá ter devolveu um pouco de paz ao meu espírito e fui dormir com um sorrisinho besta de canto de boca.

Na manhã seguinte, quase engasguei e por pouco não cuspi o gole de café com leite que acabava de saborear ao ler no jornal que o homem já tem data para sua primeira viagem tripulada a marte.

 

11/12 C24- Ivo sentia-se acuado e gaguejou mais de uma vez. PH fechava o cerco. O interrogatório durou 4 hs e acabou de modo surpreendente p/ PH.

10/12 C23- Estou explicando q onde quero ñ posso chegar; me acompanha? Minha esperança é q meu suspeito é inteligente e entenderá. Me acompanha?

9/12 C22- PH prossegue: como delegado responsável p/ inquérito ñ posso fazer isso, vc me acompanha? Ñ entendo onde quer chegar, lamenta-se Ivo

8/12 C21-PH: tenho tantos indícios contra meu suspeito q, se tivesse oportunidade, daria jeito de aconselhá-lo a apresentar-se como réu confesso.

7/12 C20- PH, palito entredentes: Ñ percamos tempo. Nem o teu nem o meu. Se houve 1 crime há 1 criminoso. Tenho um suspeito. Você me acompanha?

6/12 C19- Ivo se sente pressionado e responde: acho q ñ seria humano matar por causa de dinheiro. PH solta uma gargalhada e convida Ivo a entrar.

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Existem informações que estão disponíveis o tempo todo, mas ajo como se não as visse. Me envergonho mas não o suficiente para mudar minha atitude.

Um; dois; três; quatro; cinco.A cada cinco segundos uma criança morre de fome no mundo.

Quando não há o que comer, o corpo entra em um ciclo vicioso: a falta de alimento gera falta de energia e fadiga. Ao perder as forças a pessoa perde a vontade de comer, deixa de se mexer e até de falar. Seu estômago atrofia o que faz com que os mecanismos reguladores da fome deixem de funcionar, por isso crianças desnutridas acabam ficando desidratadas. A pele ressecada se abre em feridas que irão infeccionar, o músculo atrofiado dói a qualquer movimento e o tubo digestivo é atacado por fungos, fazendo com que engolir se torne impossível. Sem receber os nutrientes necessários para manter as funções vitais como respiração e batimentos cardíacos, o corpo busca energia na reserva de gordura e nos músculos e modifica suas funções, como o equilíbrio celular. A pessoa tem seus traços emaciados e seus músculos atrofiados. Os cabelos se tornam brancos ou avermelhados.

Agora mesmo cerca de um bilhão de pessoas estão sentindo tudo isso que acabei de falar apesar de a indústria alimentícia produzir alimentos suficientes para abastecer uma vez e meia a população da Terra.

Que coragem é essa que me falta? Até quando serei tão cruel e indiferente ao sofrimento do próximo? Se visse meu filho com fome eu seria capaz das maiores grandezas, sacrifícios e loucuras, como são os filhos dos meus irmãos eu lhes ofereço minha solene indiferença e os entrego aos urubus. E ainda tem gente que não acredita no demônio. É que eles ainda não me conheceram.

 

Acompanhe o que aconteceu na primeira novela via twitter durante a semana passada:

04/12 C 18- O delegado PH recebe Ivo na porta da delegacia. Sorridente indaga: vc acha q algum inquilino inadimplente gostaria de ver Ana morta

03/12 C 17-Ivo acolhe Ida.Dizem no bairro q a morte de Ana foi criminosa, provavelmnte algum inquilino perdulário.Ivo irá depor na manhã seguinte

02/12 C16 - Ida conta onde esteve p/ 15 dias e desculpa-se p/ sumiço. Ivo a abraça e chora. Ida visitou seu irmão + velho mas foi mandada de volta

01/12 C 15 - Ivo deve comparecer à delegacia p/ depor. Suas ideias estão em rebuliço. Ida, doente e chorando, toca a campainha. Ivo a faz entrar.

30/11 C 14 - Investigações preliminares indicam q houve envenenamento, resta saber se foi criminoso ou acidental. Chega um aintimação para Ivo.

29/11 C 13 - Uma filha de Ana avisa, via fone, q a velha foi encontrada morta em seu apê. Há suspeita de envenenamento. Ivo pergunta s/ o enterro.

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Um Palhaço Na Boca Do Vulcão

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