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O range-range da velha cadeira de balanço só cessava quando dona Benedita pegava no sono. Era uma velha casa com piso de tábuas. Tudo rangia por ali.

- Dona Benedita, tem um homem lá no portão.

- Então pode mandá-lo embora, pois não estou esperando ninguém.

- Ele está forçando o portão.

- Solta os cachorros.

- Agora está mexendo na corrente que fecha o portão.

- Solta os cachorros já falei.

- O homem está chacoalhando o portão.

- Chama o Teodoro.

- Hoje é domingo, folga do Teodoro. Esqueceu? O homem está tirando o terno.

- Chama a polícia, deve ser um tarado.

- Ele está tentando subir no portão.

- Tomara que se esborrache no chão.

- Ele passou uma perna por cima do portão. Agora está sentado lá em cima.

- Deixa ele, se reparar bem vai ver que aqui não tem nada que possa interessar nem a ele nem a ninguém. Já-já ele se enjoa e vai embora. É sempre assim. Me traz um café.

Sentado no portão o homem percebia que já não era mais o mesmo. Quantas vezes tinha pulado aquele portão? Agora não encontrava coragem para o salto.

- Esse café está muito fraco e além de tudo está muito doce.

- Mas foi a senhora mesma quem deu a ordem para fazer o café mais fraco, esqueceu? O homem continua sentado lá em cima do portão.

- O Teodoro deveria ter eletrocutado esse portão.

- Mas a senhora nunca vai esquecer essa história?

- Que história?

- Já faz tanto tempo... A senhora deveria passar uma borracha e seguir a vida.

- O que você entende da vida? Eu tinha vinte e cinco anos, a idade que você tem hoje. Era uma menina quase...

- Olha, agora que o homem no portão tirou o chapéu deu para ver que os cabelos dele são todos branquinhos. É um senhor.

- Esse café além de fraco e sem açúcar agora já está frio.

- Eu vou esquentar para a senhora.

-Não. Quantas vezes já falei que não tomo café requentado.

- Está bem, então vou passar outro.

- Não quero. Quem está no portão?

- Não sei. É um senhor que nunca vi antes. A senhora não quer ir dar uma olhada?

- Não.

O homem lá no portão, ao sentir que o cão já não era uma ameaça, passou, com dificuldade, a outra perna para o lado de dentro do portão.

- Nossa, o homem pulou. Que perigo. Um senhor de idade fazendo essas estripulias...

O homem atravessou os quase cinqüenta metros que separavam o portão da varanda ajeitando seu terno. Com o chapéu batia nos braços e nas pernas a fim de limpar o pó da estrada de terra que levava até a chácara de Dona Benedita.

- Ai, eu estou ficando nervosa. O homem vem vindo para cá.

- Vai lá dentro passar um café e traga duas xícaras.

- Mas a senhora disse que não queria.

- Não discuta e faça o que eu estou mandando.

Dona Benedita não chegou a ficar um minuto só.

- Dita? Sou eu.

- Por que você voltou?

- Por que não se vira? Como pode saber quem eu sou? Você está com o mesmo cheiro de lavanda.

- E você com a mesma voz, só um pouco mais velho.

- E as crianças?

- Crianças?

- Você deve ter notícias deles.

- Puxaram ao pai. Sem notícias.

- Dita,o tempo passou, somos pessoas diferentes.

- Eu sou a mesma pessoa. Continuo esperando o dedal que você foi comprar.

- Puxa vida,o dedal! Nem me lembrava. Passou muito tempo.

- Vá embora. Você sabe muito bem como sair sem fazer barulho ou deixar vestígios. Já fez isso uma vez, tem prática em abandonar as pessoas. Vá.

- Dita, isso foi a cinqüenta anos, de lá para cá...

- De lá para cá nada aconteceu. Nada mudou.

- Se nada mudou então você ainda gosta de mim, pelo menos um pouquinho.

- Eu não gosto de você, eu te amo como sempre te amei. As suas roupas estão no teu armário como há cinqüenta anos. Não mexi em nada. A tua cama está arrumada e seu roupão continua no banheiro. Tudo como estava.

O homem entrou na casa e quase derrubou o café que a moça levava para a varanda.

- Onde ponho o café, Dona Benedita? Não vai me dizer que esse homem é o tal.

- Claro que não vou te dizer nada. Põe o café aí e entra.

A menina entrou e quase trombou com o homem que vinha saindo com uma camisa furada nas mãos.

- Essa camisa está toda descosturada embaixo do braço.

- Desculpe, não pude costurar, pois você não trouxe o dedal.

- Isso faz cinqüenta anos Dita.

- Eu sei, pois mastiguei cada segundo desses cinqüenta anos.

- Eu também tinha vinte e cinco anos, era um rapaz, quase um moleque.

- Um moleque. Um moleque lindo. Todo queimado de sol, as mãos ásperas e as unhas grandes sujas de terra. Nunca soube lavar as mãos direito.

- Eu quero te olhar Dita, vira para mim.

Benedita ajeitou o corpo na cadeira de balanço e dando quase um salto sentada com as mãos agarradas nos braços da cadeira, girou a cadeira cento e oitenta graus. Permaneceu sentada agora de frente para o homem.

- Fiquei te esperando. Todo mundo falava que eu era uma sonhadora, que você nunca voltaria. “Imagine se um homem que sai para comprar um dedal e simplesmente desaparece por quase cinqüenta anos sem dar nenhuma explicação vai voltar para casa. Claro que ele não volta Benedita”. Eu tinha certeza que você voltaria. Sabia. Te esperei.

- Acontecem coisas na vida da gente.

- Acontecem. Quando você menos espera elas acontecem.

- Esse café é fresco ou é jeito dele.

- Fresco.

A menina escutava tudo atrás da porta da sala. Estava curiosa e achava que poderia escutar algum detalhe novo, alguma coisa que Dona Benedita tenha omitido ou esquecido de propósito.

O homem serviu o café para ele e para ela.

- Obrigada.

- Nada.

- Toma que o café vai esfriar.

- Eu tinha medo que as coisas que você escrevia nas cartas fossem verdade. Que você estava ótima, feliz da vida, radiante, vivendo uma vida nova, cheia de amigas entrando e saindo da casa.

- Era assim que eu queria que fosse.

O homem arrastou uma espreguiçadeira para perto da cadeira de balanço onde estava dona Benedita.

- Qual a tua explicação?

- É uma longa estória.

- Pretende ficar por quanto tempo?

- Até morrer.

- Continua fumando dois maços por dia?

- Sim.

- Então não vai ficar por muito tempo. Quero saber de tudo. Tim-tim por tim- tim. Quero ir nesses programas de auditório e responder tudo sobre sua vida.

- É uma estória bem longa. São cinqüenta anos.

- Temos todo o tempo do mundo.

- Acha que dá para a gente recomeçar?

- Tenho medo que a gente já não se saiba mais.

- Podemos aprender de novo.

- Espero que aprendamos melhor nessa segunda chance.

- Fica como um intervalo.

- Um intervalo?

- É. O tempo passou e aqui estamos nós de novo. Cinqüenta anos...e agora? Espero que você não me envenene à noite.

- Não posso te garantir nada. Vai depender de você.

Nero voltou a latir para alguém que passava na frente do portão e a menina voltou para a cozinha.

Seu Renato, sempre vestido impecavelmente, era um homem metódico. Um homem metódico. Marido exemplar. Era comentário geral a elegância de seu Renato. Poucos sabem colocar a camisa por dentro da calça como ele. Um perito. Sempre bem passadas. Perito. Um perito. Nenhum vinco fora de lugar. Mantinha como um tesouro a sua coleção de camisas. Todas beges. Beges.

Há meses uma coisa o intrigava: ao descer as escadas que o conduziam à calçada topava, cotidianamente, com um estranho prato de plástico preto com água pela metade. Parecia provocação de alguém. Provocação de alguém. O prato, mesmo depois de ser esvaziado e recolocado em seu devido lugar, amanhecia obstruindo o caminho do síndico, sempre com água pela metade. Com água pela metade.

As coisas estavam ficando insuportáveis a ponto de seu Renato convocar uma reunião com todos os funcionários do condomínio. Insuportáveis. Finalmente foi tudo esclarecido e quando seu Renato, camisa bege sempre impecável, ficou sabendo a causa daquele infortúnio quase teve um treco. Ficou branco. Passou mal. Perdeu a cabeça. Tiveram que ir correndo pegar um copo de água antes que o homem tivesse um pirepaque. Tivesse um pirepaque.

Mauro era um típico migrante nordestino, magro, simpático, sotaque inconfundível e sempre prestativo. Mauro. Sempre prestativo. Durante seus plantões na garagem fazia suas lições do supletivo, assunto que dividia as opiniões nas assembléias condominiais, afinal se ficava estudando não poderia manter a devida atenção ao portão de entrada da garagem. Seu Renato sempre o defendia. Portão de entrada da garagem.

Mas naquele episódio a corda arrebentou.

- Água para sábia tomar banho?! Água do condomínio?!

- Não é só banho, não. Elas bebem também.

Aquilo foi demais. Até mesmo seus colegas o reprovaram e acabaram concordando com seu Renato que acabava de perder as estribeiras. Perder as estribeiras. O velho marchava completamente desgovernado, como um corpo sem cabeça, ao redor do pobre faxineiro. Pobre faxineiro.

- Isto não tem cabimento! Tremenda falta de bom censo! Molecagem! Água do condomínio? A sabia que se lasque. Que se lasque. A sabia.

O pobre Mauro, já assustado com o estado de nervos do síndico, tentava explicar-se e com sua explicação queria muito mais salvaguardar os interesses da sabiá do que os seus. Os seus.

- A Sábia gosta. Bebe água e às vezes toma banho. E tem o seu parzinho, uma sábia de peito amarelo, acho que é sua namorada. A sabia gosta. O seu parzinho.

Seu Renato não permitiu que o rapaz continuasse sua explanação e assumindo um tom definitivo apresentou sua argumentação como segue. Argumentação como segue:- Mauro, sou o síndico desse condomínio que é um condomínio habitado por seres humanos; não é um jardim zoológico, nem um viveiro de pássaros. Um viveiro de pássaros. Tenho a obrigação de manter os gastos dentro de restrições orçamentárias. Obrigação. Eu tenho a obrigação. Água custa dinheiro. Eu te proíbo terminantemente de gastar nossa água para dar banho em Sabiá, cotovia, pica-pau, rolinha, rouxinol, bem-te-vi ou qualquer outro tipo de pássaro, caso contrário, o senhor será despedido. Fui claro? A sabia que se lasque. Está despedido. A sabia que se lasque. Despedido.

O pobre porteiro escutou tudo de cabeça baixa e, como era previsível, acatou as ordens do síndico. Não daria mais água do condomínio para o casal de sábias. Condomínio. Condomínio.

Na manhã seguinte, o homem quase teve um treco ao tropeçar no pratinho preto com água pela metade. Quase teve um treco. Gostei. Estava no mesmo lugar de sempre e com algumas gotas espalhadas a sua volta, sinal de que a sabiá já tinha tomado seu banho. Incrédulo. Mais do que qualquer coisa seu Renato estava incrédulo. Aquilo era insubordinação. Incrédulo. Estava incrédulo. Ele ajeitou a camisa para dentro da calça, certificou-se de todos os botões estarem bem abotoados e marchou em direção à portaria. Assim como todos, seu Renato possuía muitas qualidades e muitos defeitos misturados. Era um homem cordial, honesto, bem instruído, sensato, prestimoso, mas paciente ele não era. Paciente. Cordial. Paciente ele não era. O homem era estopim curto e a cena que se desenrolou na portaria não deixa dúvidas quanto ao seu temperamento explosivo. Explosivo. Não deixa duvidas. Gostei.

O homem carregava uma nuvem negra sobre a cabeça. Nuvem negra. Abriu a porta da guarita como quem chega a um saloon no faroeste, fincou os dois pés no chão, pernas bem abertas, olhou para os lados e finalmente encarou o oponente. O pobre Mauro estava tão atento cortando as unhas da mão que não percebeu a chegada do síndico. O oponente. O moço pulou da cadeira e a tesourinha de unha voou longe quando seu Renato pediu explicações sobre a volta do pratinho preto com água pela metade. Voou longe. A tesourinha voou longe. Mauro tentou primeiro acalmar o síndico, o homem estava transtornado. Um outro faxineiro que passava pela guarita da portaria ficou espiando o desenrolar do encontro. Transtornado. O síndico gesticulava, gritava, dava socos na mesa, batia no peito, levantava as mãos para o céu, batia com a mão espalmada na própria testa, apontava o dedo na cara do pobre Mauro e cuspia enquanto falava. A cena foi horrível. Horrível. A cena foi horrível. O faxineiro bateu em retirada rápido como um corisco quando o olhar do síndico cruzou com o seu. Dentro da guarita, enquanto seu Renato arrumava a camisa para dentro da calça refazendo-se de seu destempero, o assustado Mauro recolhia sua tesoura de unha do chão à medida que se explicava da seguinte forma:

- O senhor explicou que o prédio tem custos, que água custa dinheiro e que não era justo gastar água do prédio para a sábia tomar banho, eu entendi. Água para tomar banho. A sabia. Não era justo. Entendi. Eu mesmo trouxe água de casa nessa garrafinha aqui, a água que eu coloquei no pratinho não é do prédio, é minha. Essa garrafinha aqui. Não é do prédio. É minha.

Seu Renato respirou fundo. Colocou a ponta do polegar entre os dentes da frente e permaneceu em silêncio enquanto olhava o desolado Mauro. Reconhecia a ingenuidade do porteiro. O desolado Mauro. Porteiro ingênuo. Procurava a forma mais didática de colocar seu ponto de vista. O silêncio na guarita durou cerca de trinta segundos, trinta segundos, ao final dos quais seu Renato pronunciou-se assim:

- Olha Mauro, eu não quero saber de onde vem a água que está naquele pratinho, não me interessa. Eu não quero, nunca mais, ver aquele pratinho ali onde eu o vi hoje. Nunca mais. Onde eu vi hoje nunca mais. Nem com água, nem sem água. Fui claro? A sabia que se lasque.

O porteiro olhava o síndico com um olhar bovino. Olhava com olhar bovino. Processou as informações como pode e pareceu entender a mensagem. O episódio chegou ao fim. Aparentemente. Ao fim. Aparentemente ao fim.

Manhã do dia seguinte seu Renato desceu até o playground para brincar com seus netos. Playground, para brincar com os netos no playground. De quatro, cavalinho das crianças, não poderia imaginar o que lhe aguardava. Foi naquela posição desfavorável que topou com o pratinho preto com água pela metade ali no jardim do playground. De quatro. Cavalinho de quatro. Com o pinote que levou o menino caiu assustado das costas do avô que ajeitava a camisa para dentro da calça enquanto olhava, incrédulo, o pratinho preto entrincheirado no meio da folhagem. Pinote. Deu um pinote.

Agora era uma questão pessoal e como sempre acontece nesses lastimosos casos, a temperança cede seu posto à paixão, o orgulho se agiganta, a visão torna-se escandalosamente parcial e o equilíbrio vai para o espaço. Para o espaço. Parcial. Escandalosamente parcial. Seu Renato marchou rumo á portaria deixando seus netos sozinhos no jardim, fato que custou todo o canteiro de sempre-vivas. No caminho conferia o fechamento dos botões de sua camisa, ajustava a gola e aprumava os punhos. Arrumava os punhos. Os punhos. O fechamento dos botões

O jovem Mauro conferia o resultado do jogo do bicho, tinha sonhado com macaco e apostado seco. Dito e feito. Macaco na cabeça. Dito e feito. Na cabeça. Macaco na cabeça. O dinheiro ganho ajudaria a enfrentar o longo período que passaria procurando por um novo emprego. Novo emprego.

Seu Renato foi curto e grosso. Perguntou se tinha sido ele quem tinha novamente colocado o pratinho preto no jardim. Curto e grosso. Mauro tinha muitos defeitos, mas seu pai o tinha ensinado a não mentir. Ele aprendeu. Custou seu emprego. Não mentir. Seu pai tinha ensinado. Não adiantou nada sua argumentação, seu Renato foi taxativo:

- Você está despedido. E não se esqueça de levar consigo o maldito pratinho de água.

Taxativo. Foi taxativo.

- O senhor não queria mais o pratinho lá onde eu costumava por, mas no jardim eu nunca tinha posto. Não imaginei que o senhor fosse se zangar tanto. No jardim eu nunca tinha posto. No jardim.

A argumentação de Mauro foi tão inútil quanto socar água num pilão. A coisa tinha virado uma questão pessoal. Foi demitido em caráter irrevogável. Irrevogável. Caráter irrevogável. A sabia que se lasque.

O rapaz foi embora na mesma manhã e seu Renato assumiu a portaria. Atendeu interfone, abriu e fechou a porta da garagem, separou a correspondência, aguou o jardim e ao final da tarde passou o bastão ao porteiro da noite. Da noite. Passou o interfone. Interfone. Passou.

Tão logo seu Renato deu as costas ao funcionário, o rapaz quase gelou ao notar uma improvável mancha na camisa bege do síndico. Engoliu seco, quis falar, enrolou-se todo, mas não encontrou maneiras de dizer, as palavras não lhe cabiam na boca. Seu amigo já tinha perdido o emprego e ele não queria ser o próximo. Não cabiam na boca. O próximo. Não queria ser o próximo.

Foi dona Berenice, a esposa de seu Renato, quem fez a revelação. Dona Berenice. Por um desses inexplicáveis caprichos do destino, aconteceu o que mais tarde seria qualificado, nas últimas palavras de seu Renato, como uma “catástrofe imperdoável”. Últimas palavras. Catástrofe imperdoável. Gostei. À tarde, enquanto regava as plantas do jardim, seu Renato, mais precisamente a impecável camisa bege de seu Renato, foi um alvo perfeito. Imperdoável. A sabiá cagou-lhe nas costas. Sabiá sabida. A camisa bege. Uma mancha horrenda! Um assombro. Um volume incongruente. Desproporcional. Logo na sua camisa bege! Desproporcional. Na camisa bege. A sabia cagou.

O transtorno foi tanto que o homem não resistiu. Teve quem não se conformasse: um enfarto fulminante por causa de uma mancha na camisa? Isso já é demais. Fulminante. Enfarto fulminante. Não resistiu.

Na manhã seguinte, o casal de sabias cantou seu canto mais esplendido. Longo, sonoro, cheio de improviso. Improviso. Cheio de improviso. Esplendido. E curioso: as andorinhas, solidárias, entoaram possantes seu canto mais colorido. Canto colorido. E aparentemente inexplicável: o beija-flor rotineiro passou a evitar as flores que brotavam nos vãos de cimento do túmulo de seu Renato. De propósito. O beija flor.

Todo o bairro notou.

Talvez por isso, depois daquele episódio, pelo sim pelo não, todos os muros e degraus de escada do bairro tornaram-se depositários de recipientes com água. Pelo sim pelo não. Vários tamanhos e formas, sempre com água pela metade. Pelo sim pelo não. Vasos com água. De todos os tamanhos. Com água.

As sábias podiam finalmente tomar banho e beber água à vontade. As sabias. Podiam. Pena que o jovem Mauro já tivesse voltado para sua cidade natal e não tenha testemunhado a nossa conquista épica. Conquista épica. Ele, com certeza, teria ficado tão feliz quanto nós. Com certeza. Feliz como nós. Seu Renato que se lasque. Currupaco. Bem feito. Que se lasque. Currupaco.

Tudo começou quando tinha apenas dez anos de idade. Um homem de terno azul-escuro apareceu-lhe em sonho anunciando em tom solene: teu pai não passa de abril. Dito e feito. Dia trinta e um de março sua mãe ficou muito apreensiva com a demora do marido que não costumava chegar tão tarde do trabalho. Tinha sofrido um derrame cerebral. Não resistiu. Sonhos premonitórios se tornaram constantes na vida de Julia. Previu acidentes, mortes, até um pequeno naufrágio com uma barca na Baía da Guanabara. Ela não gostava nada daquilo. Não tinha controle sobre eles, vinham e pronto. Previu também seu primeiro encontro com Jacaré. E tudo aconteceu exatamente como no sonho sonhado dois meses antes.

Havia conhecido o dono daquela mansão num vernissage; o coroa logo se encantou com os olhos azuis e a conversa fácil da moça. O coroa era casado, não tinha filhos e viajava muito com a esposa. Em muito pouco tempo Julia já tinha a chave da mansão. A luz da sala se acendeu no exato momento em que Julia fechava a gaveta da cômoda. O casal chegou quando Julia não esperava. Faziam barulho, riam alto, arrastavam cadeiras, caminhavam trôpegos e cantavam marchinhas de carnaval. Bêbados como estavam, demorariam a subir as escadas. Isso dava tempo para Julia pensar. Certificou-se de ter pegado o colar de pérolas. Estava no bolso de seu casaco junto com os anéis e os brincos de ouro. A questão agora era como descer as escadas e passar pela sala de estar sem que seu caminho cruzasse com o do casal. Nesse negócio era importante ter paciência.

O casal estava muito alegre e as circunstâncias indicavam que não sossegariam tão cedo. Amanheceria e os empregados acordariam. Julia andava de um lado para o outro esfregando as mãos. Sempre fazia isso quando nervosa. Ela deu um salto quando uma mão tocou-lhe o ombro. Quase soltou um grito que foi prontamente sufocado pela mão grossa do rapaz. O rapaz era bonito, porte atlético, um bigodinho fino e um sorriso encantador. Julia estava assustada, mas alguma coisa no rapaz a encantava. Parecia totalmente dono da situação, inteiramente à vontade. Como os donos da mansão continuassem a algazarra lá em baixo, o rapaz percebeu que teriam tempo. Pegou Julia pela mão e arrastou-a pelo corredor em direção ao quarto do casal. A moça não entendeu a atitude do rapaz e como não podia gritar meteu as unhas nas suas costas. O rapaz virou-se e apertou a moça junto ao peito, o gesto que inicialmente era um impulso de defesa, rapidamente ganhou malicia e a cena do andar de baixo reproduziu-se no andar de cima. O casal de coroas já não dispunha do mesmo vigor nem estavam num contexto tão excitante quanto Julia e Jacaré. A cena do andar de baixo era a caricatura quase falida da fogueira que incendiou o andar de cima. Quando perceberam que o casal no andar de baixo havia finalmente adormecido, Julia quis aproveitar a situação. Jacaré também. Mas o que cada um compreendia por aproveitar a situação era diferente. Julia já estava aflita, e Jacaré ainda não havia saciado sua volúpia. Quando a luz do dia anunciou o limite para que os dois escapassem, os dois gatunos desceram as escadas como se fossem as escadas de sua casa. De passagem, Julia ainda apanhou um vaso que estava ao lado da porta de saída, embrulhou-o em jornal e colocou-o na bolsa enquanto Jacaré vasculhava a carteira da coroa.

Aquela foi a primeira de muitas vezes em que os dois se encontrariam. Viveram uma longa estória que, não fosse o fim trágico, até poderia ser anunciada como uma exemplar estória de amor. Eram lindos, talentosos e aprenderam a se amar no contexto nada comum em que levavam as suas vidas. A vida dos dois entrelaçava-se intercalando longos períodos de convivência – quando realizavam assaltos sempre regados com muita aventura, paixão e juras de amor - com períodos de completa separação durante os quais os dois nem sequer sabiam se o outro ainda estava vivo.

Dois grandes larápios nutriam admiração mútua pelos golpes aplicados pelo outro. Ambos especializados em assaltos a mansões. Sem uso de violência, sem arrombamentos, sem desordem. Conheciam os donos das mansões, seduziam-nos e faziam a rapa. Tentaram até trabalhar juntos, mas Jacaré profetizou o fim da parceria em tom solene: onde se ganha o pão não se come a carne.

Como diz o ditado: um dia a casa cai. Em situações e momentos diferentes, os dois foram pegos. A vida ligada ao crime exigiu, dos dois, uma boa dose de crueldade. O glamour dos primeiros assaltos foi cedendo espaço à crueza do dia-a-dia. As circunstâncias de suas vidas os tornaram violentas. Muito.

Agora, quase trinta anos separados, dona Julia já tinha os cabelos brancos e muito compridos, mal tratados, uma boca sem dentes e uma língua enorme que mal cabia dentro da boca, nem sombra da rainha do carnaval do Cambuci/1948.

Graças aos esforços da filha, moça sem pai que, surpreendentemente, Júlia coseguira criar direito, foi transferida do manicômio judiciário. Viveu um tempo com a menina, mas o convívio foi insuportável. A solução foi aquele sanatório. Pequeno, porém honesto, como dizia sua filha. E foi lá - quem diria? - onde viveu seus últimos momentos de intensidade e vigor. Julia e Jacaré tinham passado por uma fase de seis meses juntos na Colômbia. Durante uma fuga, quase morreram e se viram obrigados a se separar. Julia voltou para o Brasil. Jacaré sumiu. Julia seguiu com seus golpes. Cada vez menos glamour e mais frieza. Mais crueldade. Mais loucura. Passaram-se anos e Jacaré foi apanhado após cometer um crime bárbaro. Considerado inimputável foi internado no sanatório onde seu grande amor estava internado há anos. O reencontro foi quase tão emocionante quanto aquele primeiro durante o assalto àquela mansão. A mesma mão surpreendente no ombro de Julia, a mesma surpresa, o mesmo encanto, o mesmo frio na barriga.

Jacaré, agora velho e devastado pelo câncer, tinha memória prodigiosa para algumas coisas e passavam tardes inteiras relembrando as marchinhas de carnaval dos bons tempos do Cambuci. Os dois viviam rindo e se divertindo com os relatos do outro. Dona Julia chegava a chorar de emoção durante alguns relatos. Respirava fundo, levava o lenço à boca, fechava os olhos para depois, recomposta, retomar o fio da meada.

Os enfermeiros e funcionários do sanatório falavam, com malícia, sobre a intimidade dos dois. Aquele não era o cenário perfeito para uma estória de amor, mas a estória dos dois nunca foi perfeita. No sanatório viveram sete meses de lua de mel. Todos lamentariam o fim daquele idílio, principalmente dona Júlia que, mesmo sendo avisada, não pode fazer nada.

Como de praxe, as luzes apagaram-se às nove horas da noite, logo após a porta do dormitório ser trancada. A televisão, como de costume, foi subitamente desligada. Dona Julia, como era chamada, custou a dormir. A escuridão do dormitório, o eco dos passos dos enfermeiros pelos corredores, o vento nas janelas, o reencontro com Jacaré, tudo fazia Julia reviver a excitação de sua vida de assaltante glamurosa. Os breves períodos na prisão, os inúmeros reencontros com Jacaré, a filha gerada por descuido, o primeiro homicídio, o segundo, os requintes de crueldade, a surpresa com a própria maldade. A sua vida inteira passou diante de seus olhos como num filme. Como num sonho.

O mesmo homem de terno azul-escuro apareceu novamente. Desta vez o tempo seria mais exíguo: o Jacaré não passa dessa semana. Dona Julia arregalou os olhos como se visse fantasma no teto frio do quarto. Chorou. Urrou e gritou de dor a noite inteira. Os enfermeiros continuaram dormindo indiferentes ao sofrimento da velha. Dona Julia não pôde acompanhar o enterro do seu grande amor.

Anos depois, poucos dias antes de morrer, Julia sonhou daqueles sonhos de novo. Era uma manhã de sol radiante. O homem do terno azul-escuro caminhava numa praia de areia muito alva. Aproximou-se de Julia sentada debaixo de um enorme guarda sol. Livrou-se do terno e pediu a ela que vigiasse suas roupas enquanto daria um mergulho. Nu, nadou em direção ao horizonte até não poder mais ser visto. Mergulhou. O terno azul-escuro, aos poucos, foi coberto pela areia do vento. Uma mão tocou o ombro de Julia. Era Jacaré quem chegava. Os dois se abraçaram. A praia era só deles.

Seu Braga, professor de geometria, podia estar fazendo qualquer coisa, passasse um avião, parava e ficava olhando para cima. Acompanhava sua passagem levasse o tempo que levasse. Todos estavam acostumados, seu Braga fazia isso desde criança. Uma mania inofensiva, como de resto eram inofensivas todas as atitudes de seu Braga. Homem bom, espécie de santo. Sempre atencioso com as pessoas, conciliador com a esposa, paciente com as crianças, cordial com os colegas.

Repentina e inexplicavelmente, começou a tomar as medidas das coisas. Era meticuloso em seus procedimentos e fazia questão da precisão nas medidas que tomava. Tomou uma velha trena em sua caixa de ferramentas e mediu a mesa da sala de jantar, logo mais estava enfiado embaixo da cômoda. Ao longo de uma semana, mediu tudo quanto pôde dentro de sua casa e ninguém sabia, nem sequer desconfiava, para que fazia aquilo.

Logo se seguiu à fase de tomar medidas das coisas fora de sua casa. Causou alguns transtornos quando quis tomar as medidas do internato das freiras. Homens não podiam entrar, ele chegou a fantasiar-se de freira e quase conseguiu burlar a vigilância, não fosse ter tossido e chamado a atenção da madre superiora.

Seu Braga tinha uma teoria: as coisas andam fora de esquadro. Existe uma proporção entre todas as coisas e, quem for capaz de desvenda-lá terá descoberto uma lei universal aplicável na solução de problemas que afligem toda a humanidade. Estava seguro disso.

Como desfrutava do respeito de todos na cidade, o tema sobre a tal lei universal das proporções passou a ser o assunto de qualquer encontro onde houvesse mais de três pessoas. Muita gente passou da teoria à prática. Até uma freira se dispôs a anotar as medidas do interior do internato. Muitas crianças adoraram a idéia e, rapidamente, as vendas de réguas, trenas e fitas métricas esvaziou os estoques desses produtos na cidade. Surgiram os aproveitadores que, se valendo da febre medidora que tomava conta do lugar, tiravam vantagens pessoais. Tinha gente alugando trena a preços exorbitantes e até quem vendesse conjuntos de medidas prontas. O prefeito precisou intervir. Reuniu-se com o delegado em sua casa e passou ordens expressas: prenda qualquer pessoa encontrada tomando medidas na cidade. Mas isso é ilegal, não existe lei alguma que proíba as pessoas de usarem réguas e trenas para tomarem medidas; ponderou o aflito delegado. Agora existe. Eu acabo de promulgar essa lei. Fica terminantemente proibido o uso de qualquer instrumento de medida na cidade sob pena de reclusão caso haja flagrante. Mal saiu e o delegado passou por um animado grupo de meninas que tomavam as medidas do coreto da praça. Como poderia prender aquelas inofensivas garotas? Pressentiu problemas.

Para alívio do delegado, do prefeito e de toda a cidade, seu Braga anunciou, num comunicado pago no jornal local, estar encerrada a fase de recolhimento de dados de sua pesquisa. De agora em diante, o trabalho seguiria incessante e solitário em seu gabinete. Já dispunha de um conjunto de medidas suficiente para que pudesse chegar a uma fórmula definitiva da lei da proporção universal.

A cidade comemorou a notícia. Todo o exército de medidores mobilizado na tarefa de tomar as medidas de tudo quanto fosse mensurável na cidade sentiu-se recompensado e orgulhoso por ter cumprido a função a eles incumbida, muito embora nunca lhes tenha sido atribuída função alguma, senão eles próprios se dispuseram, por livre e espontânea vontade, à execução daquela árdua tarefa.

Após quinze dias fechado em seu gabinete, sem sair nem mesmo para alimentar-se ou dormir, seu Braga tinha concluído seu projeto. Finalmente, convidou toda a alta sociedade, todo o corpo docente da escola e todos aqueles interessados na solução dos problemas do mundo a assistirem à sua exposição sobre a lei universal das proporções. Marcou uma conferência às 21 horas do sábado seguinte, no salão nobre da escola. Passou a semana toda agitadíssimo, andando apressado pelas ruas, comprando roupa nova para a grande noite e deixando transparecer uma enorme euforia a todos que lhe prestassem alguma atenção. Seu Braga estava radiante.

Chegado o dia da apresentação e a cidade não falava em outra coisa. O professor levantou-se antes ainda de o dia clarear. Na padaria, na banca de jornal, na praça da matriz, todos apontavam seu Braga de passagem aqui e ali. Quem teve aulas com ele nos tempos de escola, se orgulhava de sua época e, tinha sempre uma estória atestando a genialidade do professor. Quase todo mundo dizia ter tido aulas com ele, mesmo gente que nunca pisou numa escola.

Uma hora antes do horário marcado o salão nobre da escola já estava lotado. O prefeito ainda não tinha aparecido e, certamente, quando chegasse, exigiria um lugar. O difícil era imaginar quem aceitaria ceder seu posto tendo chegado tão cedo. Aquilo não acabaria bem, pensava o aflito delegado.

A rua da escola já estava completamente tomada pela multidão quando o prefeito apareceu na esquina. Seria impossível abrir-lhe passagem e, ao notar a situação, telefonou ao seu Braga, já na escola desde as duas horas da tarde, e ordenou-lhe que suspendesse a apresentação daquela noite. Não admitiria o enunciado de sua lei universal das proporções sem a sua presença. Seu Braga torceu o nariz, mas concordou que sem a presença do prefeito, nem ele gostaria de anunciar aquilo que tinha para anunciar.

Foi muito difícil para o delegado conter a fúria da multidão, principalmente daqueles que já se encontravam no interior do salão nobre. As coisas só não ficaram realmente piores por que seu Braga fez uma aparição pública. Da janela da sala dos professores, suspensa sobre a grande escadaria de acesso à escola, completamente abarrotada de gente, seu Braga anunciou: Devido à necessidade de refazer alguns cálculos, o anúncio da lei universal das proporções será adiado por dois dias. O burburinho foi geral.

Ninguém sabe como, e aquilo viraria um mistério na história da cidade, o domingo transcorreu na mais tranqüila ordem. Nenhum vestígio da baderna e do alvoroço que tomaram conta da cidade no sábado. A cidade amanheceu silenciosa e o domingo passou indiferente ao acontecido no sábado e ao que aconteceria na segunda. As crianças chutaram bola nos quintais, os casais passearam na praça, os jornais foram lidos e os almoços de família acabaram todos em paz.

Na segunda, logo pela manhã, começou a distribuição das senhas para o anúncio da lei universal das proporções. Quem não conseguisse senha poderia acompanhar tudo junto a um telão instalado na praça da matriz. O prefeito ganhou a senha de número um. Tudo pronto e nada poderia atrapalhar o anúncio da tão esperada fórmula. Foi decretado ponto facultativo nas repartições públicas e as aulas foram suspensas. Seu Braga tomou o caminho da escola às quatro da tarde, gostava de chegar sempre cedo aos seus compromissos. Interrompeu seu trajeto apenas para mirar, atentamente, um avião que voava solene naquela tarde de céu azul. Todos que viram seu Braga com as mãos na testa, como fossem a aba de um boné a lhe proteger os olhos do sol, fizeram o mesmo.

O relógio da praça da matriz badalou nove vezes e seu Braga adentrou o salão nobre da escola. Não caberia mais nenhuma mosca, todos aplaudiram sua chegada e, na praça da matriz, a multidão – olhos colados no telão – gritava vivas ao professor. Seu Braga falou por cerca de quatro horas. Apresentou medidas, deduziu fórmulas incompreensíveis, exibiu gráficos e, quando já passava de uma hora da manhã, anunciou solene: não resta dúvida, por todo o já exposto, que o mundo anda fora de esquadro. Fica assim demonstrada, através da aplicação da Lei universal das proporções, que a proporção das coisas excedeu, em muito, os limites de nossa capacidade de atuação. Bateu com os papeis na mesa de modo a alinhar o enorme maço de anotações, tirou os óculos, olhou na direção do prefeito, sentado na primeira fila, e fez um gesto com as mãos indicando que a exposição estava encerrada.

O prefeito olhou para trás e certificou-se de que todos estivessem tão atônitos quanto ele. O povo, que se amontoava na praça da matriz em frente ao telão, começou um movimento de protesto. Logo o protesto virou quebra-quebra.

Uma escolta policial precisou conduzir seu Braga até sua casa. Sua esposa, envergonhadíssima, foi logo tirando satisfações. Seu Braga, muito tranqüilo, explicou não estranhar a reação popular uma vez que a linguagem científica não costuma ser compreendida pelas pessoas com menos instrução. Mal teve tempo de terminar sua argumentação e o prefeito já batia em sua porta. Seu Braga pediu que entrasse e foi logo pedindo à esposa que passasse um cafezinho, tinham visitas. O prefeito dispensou a cortesia e foi, dedo em riste, na direção de seu Braga. O senhor passou das medidas, seu Braga! Seu Braga sorriu aliviado e abraçou o prefeito. Recuou dois passos e, segurando os braços do colega, anunciou aliviado: Sabia que o senhor me entenderia. Essa é a questão. Em linguagem de dia de semana toda a teoria é essa: a humanidade passou das medidas.

O prefeito saiu da casa de seu Braga convencido de que ele tinha perdido o juízo. Chegando a sua casa telefonou a alguns conhecidos e providenciou a internação para a manhã seguinte.

Seu Braga, sempre pacífico, não ofereceu resistência, pelo contrário, foi até bastante cordial e dispensou a camisa-de-força. Foi levado ao manicômio da cidade. Poucos dias se passaram e a febre de medição tomou conta do lugar. Em pouco tempo, seu Braga reproduzia a exposição que fizera no salão nobre da escola para seus colegas do manicômio. Lá também ninguém entendeu patavina.

A coisa começou a agravar-se quando seu Braga começou a agir no sentido de reparar aquilo que acreditava estar fora de proporção. Primeiro, podou algumas árvores do pátio, depois, cerrou a porta de um armário e por fim, amputou o próprio dedo mindinho. Uma junta médica foi convocada a pedido do prefeito. Vários especialistas debruçaram-se sobre o caso e marcaram uma data para apresentar suas conclusões. Falaram por cerca de três horas, apresentaram dados, gráficos e até textos internacionais sobre o assunto e, ao final da exposição, concluíram ser inegável que seu Braga tinha excedido as medidas e que eles, os médicos membros da tal junta, não poderiam fazer nada. O problema excedia, em muito, os limites de sua capacidade de atuação. O prefeito engoliu seco. Sentia-se enganado. Mandou chamar o delegado. Relatou ao colega os fatos ocorridos e exigiu que todos os oito membros da junta médica fossem recolhidos ao xadrez sob acusação de charlatanismo.

O delegado, farejando problemas, explicou ao prefeito que prender um grupo composto por oito pessoas, excedia, em muito, a capacidade da delegacia. Para prendê-los, outros presos deveriam ser soltos. Ao que o prefeito redargüiu não ser possível, por tratar-se de uma medida que excederia, em muito, os limites de sua capacidade de atuação.

Estavam o delegado e o prefeito de mãos atadas. Precisavam tomar uma providência, porém não sabiam qual. Convocaram o Bispo da diocese. Expuseram-lhe toda a situação. O Bispo ouviu a tudo muito atentamente, bebeu um gole d’água, limpou o pigarro da garganta e anunciou: Meus filhos, as dimensões do problema por vocês apresentado excedem, em muito, os limites de minha capacidade de atuação, infelizmente temo não poder ajudá-los.

O prefeito, incansável, solicitou a presença do governador do Estado argumentando estarem diante de um problema que em muito excedia os limites da esfera municipal.

O Governador foi recebido pela banda da cidade com muita festa. O prefeito colocou-o a par do ocorrido. Não suprimiu nenhum detalhe para assegurar-se de que o governador estivesse fornido de todos os elementos necessários a fim de formular um veredicto definitivo para o caso. O Governador deu alguns telefonemas e, anunciou ao prefeito ter solicitado a vinda do Presidente. Estava claro que as dimensões da questão excediam, em muito, os limites de sua capacidade de atuação.

Numa cidade pequena as notícias correm rápidas. Seu Braga parecia muito satisfeito. Ouvia os relatos com atenção e saía falando consigo: quando eu falei, ninguém entendeu... Agora talvez compreendam.

O presidente quis conhecer seu Braga pessoalmente. Foi levado até o manicômio. Contam que enquanto o presidente conversava com seu Braga, este pediu licença e afastou-se por um instante. Passava um avião e o presidente, mais alto que seu Braga, dificultava-lhe a visão. Afastou-se dois passos para trás, observou atentamente o avião e, após sua passagem, colocou-se novamente diante do presidente. Ao final da conversa, a qual ninguém teve acesso, o presidente exigiu uma apresentação particular da teoria universal das proporções. Queria mais detalhes. Arranjaram, para a noite seguinte, uma sala com quadro negro onde seu Braga pudesse expor sua teoria. Compareceram, além do presidente, o governador, o prefeito, o delegado, o bispo e o diretor do manicômio. Após novas quatro horas de apresentação, o presidente teve uma reação surpreendente: abraçou seu Braga efusivamente e, lá mesmo, o convidou a ocupar o ministério da ciência e tecnologia. Explicou que o cargo se encontrava vago por motivos que excediam os limites de sua autoridade; a morte do ex-ministro. Todo o país aplaudiu a decisão.

Seu Braga, alçado do posto de professor ao de ministro, deixou a cidade num desfile de carro aberto. Uma multidão acompanhou sua partida. O prefeito e o delegado estavam satisfeitos e orgulhosos com a visibilidade que a cidade ganharia no cenário nacional. Foi construído um busto em bronze na praça da matriz em homenagem a seu Braga, o filho mais ilustre da cidade. A escola e a biblioteca ganharam seu nome.

No aeroporto, durante seu embarque, o professor permaneceu hipnotizado pelos aviões. Sua paixão em acompanhar o curso das aeronaves fez com que perdesse seu vôo inúmeras vezes. O homem permanecia estático mirando os aviões. Só quando, tarde da noite, o tráfego de aviões foi interrompido, seu Braga voltou a si. Tarde demais, tiveram que levar o homem de ônibus.

Seu Braga era homem de lida fácil e o presidente logo se afeiçoou a ele. Tanto que, não raro, tomavam juntos o lanche da tarde. As esquisitices de seu Braga divertiam o presidente. Mas, como houvera ele mesmo demonstrado com sua fórmula, tudo está sujeito a uma proporção que precisa ser respeitada. O professor, digo o ministro, transgrediu a lei por ele mesmo formulada e, isso lhe custou o cargo e a liberdade.

O caso se passou como relato a seguir: Durante um dos lanches da tarde, uma borboleta laranja e preta, tamanho médio, pousou sobre o balcão, bem diante do copo de leite de seu Braga. Bateu as asas sem alçar vôo, espécie de tremelique gracioso. O presidente olhou-a com indiferença, seu Braga não. Ele tomou a borboleta entre seus dedos, aproximou-a do rosto e, após um breve instante de hesitação, esquecendo-se que não estava sozinho, levou o inseto até sua boca. Comeu a borboleta viva. Em seguida, tomou um gole de leite e arrotou. O presidente, diante daquela cena medonha, engasgou-se com o pedaço de pão que comia. Seu Braga havia excedido os limites do plausível e aquilo exigia providências.

O ministro, digo o professor, voltou ao manicômio. A Lei universal das proporções foi abandonada. Todo o país lamentou, mas teve de concordar com a medida.

No hospício, seu Braga continuou fazendo aquilo que sempre fez: horas fechado em seu quarto, perdido em meio a anotações, gráficos e tabelas. Só que agora, diziam que suas teorias eram malucas, coisas sem fundamento, afirmações que ninguém seria capaz de compreender. Estava maluco de pedra. Pinel. Doidinho da Silva. Tudo por causa de uma borboleta.

Humberto estava com sono, as luzes no sentido contrário ofuscavam-lhe a visão. Para piorar ainda chovia. A festa tinha sido muito animada. Bebida a rodo, boa música e comida de primeira. Fazia tempo que a família – Humberto, Sarah e a filha Mariana - não passava tanto tempo reunida.

Desde que entrara na faculdade, Mariana nunca mais fora a mesma. O casal sentia falta da filha, eram muito apegados à menina e não sabiam como lidar com a idéia de que os filhos crescem.

Quando se conheceram, vinte e cinco anos atrás, eram dois caipirões na cidade grande. Rapidamente se reconheceram um no outro. Sarah era muito sozinha, na escola tinha raras amigas, sempre fora introvertida. Humberto era estudioso, não era bom nos esportes e isso o deixava à margem do convívio coletivo. Sofria de desvio no cepto nasal e dormia mal o que lhe tornava sonolento, fato que rapidamente virou motivo de chacota entre os colegas. Humberto parecia o Keith Richards dos Rolling Stones e esse foi o assunto do primeiro encontro com Sarah. Incrível como vocês são parecidos. Papo vai, papo vem e virou namoro rapidamente.

Namoraram, entraram na faculdade, casaram. Levavam uma vida rotineira sem grandes acontecimentos, mas eram felizes. Sarah queria ser mãe desde muito pequena, sempre sonhava em amamentar, não sabia por que vivia tão intensamente a fantasia do aleitamento.

Por ironia do destino demoraram quatro anos para engravidar, e quando aconteceu foi graças ao tratamento contra infertilidade. Gastaram uma fortuna no tratamento, mas a recompensa foi enorme. Quando Mariana nasceu o casal ficou ainda mais apaixonado. A criação da menina uniu ainda mais os dois. Eram uma família feliz.

Foram convidados para a festa de casamento de um sobrinho que morava no interior. Vamos Humberto, viajar é tão bom. A gente bate e volta. É que Humberto não gostava de dormir fora de casa. Sarah estava radiante com a idéia de que Mariana viajaria com eles, a menina era muito amiga do noivo, tinham a mesma idade e namoraram durante um tempo, namorico à toa, coisa de adolescentes.

A festa esteve muito animada e Humberto, levemente embriagado, arriscou pegar a guitarra da banda e explorar sua parecença com o Keith Richards. O assunto da festa.

Mariana dormia no banco de trás e isso foi fatal. Estava sem cinto de segurança e foi atirada pelo vidro traseiro a mais de cinqüenta metros do local do acidente. Só isso já seria suficiente para arruinar a vida de Humberto, mas o destino foi ainda mais perverso. No reflexo, ele guinou o volante para a esquerda, fato que colocou Sarah como escudo na sua frente. Ele sobreviveu graças a ela.

De uma hora para outra sua vida estava arruinada. A depressão veio violenta. Meses sem sair do quarto escuro. Não tinha fome, perdera o sono, sede não sentia. Era um farrapo, um resto.

O simples fato de você reconhecer sua impotência diante da situação e vir procurar ajuda já é um fato extremamente positivo, o primeiro sinal de sua recuperação que, acredite, já começou. Humberto iria dividir o quarto com Dal Rovere, um homem muito forte, tão musculoso quanto quieto. Dizia ter sido campeão mundial de halterofilismo na década de cinqüenta. Os passeios pelo pátio, as partidas de ping-pong e as taças de gelatina roubadas depois do almoço criaram aquele repertório de cumplicidade que transforma conhecidos em amigos. Humberto apresentava uma melhora rápida e promissora. Após pouco mais de oito meses de tratamento foi chamado pela equipe médica: você está de parabéns, a partir de hoje nós o consideramos plenamente recuperado, você superou, Humberto. Agora é vida nova, e lembre-se: você ainda está vivo.

Aquelas palavras ecoaram na cabeça de Humberto como um mantra: você ainda está vivo. Voltou ao trabalho, retomou a academia e até conseguiu uma promoção. Passava por curtos e compreensíveis episódios de recaídas, dos quais ressurgia fortalecido. Só não queria casar-se novamente, a mera sugestão de sofrer novas perdas lhe era insuportável.

Humberto transformara-se na prova inequívoca de que o tempo é capaz de curar tudo. Personagem real de uma história de superação exemplar e edificante.

Numa tarde de domingo nosso personagem assistia a uma partida de futebol do campeonato brasileiro pela televisão quando o telefone tocou. Um réles telefonema numa tarde de domingo... Incrível como nossas vidas podem estar à beira de um abismo quando menos desconfiamos e tudo parece calmaria. De um momento para o outro as coisas tomam um rumo inesperado e nos tornamos vítimas de um destino cujo controle nos escapa por completo. Humberto foi apenas mais um entre tantos.

Atendeu ao telefone com um copo de cerveja na mão sem saber que aquele seria o último. Uma voz de homem apresentou-se de forma solene: era o motorista da betoneira que se chocou contra seu carro naquela madrugada fatídica. Humberto nunca quis saber nada sobre o motorista que tirou a vida de sua filha e de sua esposa, por uma questão de sobrevivência apagara aquela personagem de sua vida. O homem dizia-se muito perturbado com o acidente, passava noites em claro tendo visões do carro de Humberto aparecendo na frente da betoneira, tinha pesadelos recorrentes, sua vida tinha virado um inferno. Humberto ouvia paralisado, petrificado. Ele pedia um encontro, precisava do perdão de Humberto. Não suportava a culpa que passou a carregar depois do acidente. Foi isso que o fez telefonar-lhe naquele domingo. Refeito do choque inicial, Humberto não encontrou forças para dizer não. A voz do motorista ao telefone tinha a aura de um fantasma. Ele teve medo. Um medo pavor. Tanto que começou a gaguejar, coisa que nunca acontecera antes. Só teve o ritmo de sua respiração restabelecido depois de uns dez minutos após desligar o telefone. Afundado no sofá tentava convencer a si mesmo de que o perdão que concederia faria bem a ele também. Acreditou. Marcaram numa pizzaria do centro da cidade, naquela noite, às dez horas.

Enquanto lavava a cabeça, reviveu todo o martírio no qual sua vida tinha se transformado após o acidente. O interminável inventário de hipóteses que poderiam ter impedido o acidente, mas que não aconteceram, assombrou o final de sua tarde. Quase se arrependeu de ter aceitado o convite, mas como dizer não àquela voz? Não podia imaginar qual seria sua reação ao ver-se frente a frente com o motorista daquela betoneira que cruzou seu caminho naquela noite maldita. Não sabia se teria a grandeza de perdoar o homem que ao dormir ao volante atravessou a estrada e a sua vida. Olhou-se no espelho e desejou sorte a si mesmo antes de sair. Talvez devesse tê-lo feito com mais convicção.

Ao entrar na pizzaria, Humberto sentiu suas mãos geladas a despeito do intenso calor daquela noite. Estava perdido. Não sabia exatamente a quem procurar, nunca quis saber nada sobre o motorista da betoneira. Sentiu um enorme frio percorrer-lhe a espinha e arrepiar-lhe todos os pelos do corpo quando viu o que viu. Dal Rovere, seu parceiro de quarto durante a internação, sentado atrás da mesa. Era uma epifania maldita. O homem, ao vê-lo, sorriu em sua direção. Estava lá, sentado esperando sua chegada como uma criança que anseia ser liberada do castigo. Súbito sua vista escureceu. Teve ganas de matar como nunca imaginou pudesse sentir. Nos momentos de maior sofrimento durante a internação chegou a aninhar-se no colo de Dal Rovere como se fosse um colo materno. Havia se humilhado diante de seu algoz. Imperdoável. Aquele instante fugaz durante o qual os olhos de Humberto miraram os olhos de Dal Rovere era a eternidade.

Mesa para uma pessoa, senhor? Não, estou procurando alguém, mas acho que não é nessa pizzaria. Virou as costas e foi embora. Foi para casa correndo, em transe. Sentiu nojo de cada instante de sua vida, de cada lembrança. Chorou. Chorou de raiva. Descabelou-se. Teve pena de si mesmo. Sua vida acabava de descarrilar.

O encontro não foi nada bom para Humberto. Voltou a ter pesadelos, tinha medo de tudo, perdeu o emprego, e os poucos novos amigos se afastaram. Voltou a ser internado, seu caso agora parecia mais grave, sofria de delírios. Começou a falar coisas sem sentido, ria alto pelos cantos e só comia de cócoras, passou a usar fraldas, não controlava suas funções esfincterianas e perdera toda noção de higiene.

O último esforço de Dal Rovere em localizar o velho amigo acabou levando-o de volta ao hospital onde se conheceram. Contou ao médico não ter visto Humberto, desde que deixara o hospital, até aquela noite na pizzaria em que costumava ir aos domingos com sua esposa. Parecia que os dois tinham decidido apagar aqueles oito meses da lembrança, como um grande equívoco que decidimos estirpar de nossas vidas. Ela tinha ido ao banheiro, e ele a esperava para irem embora, quando, surpreendentemente, o velho amigo apareceu. Dal Rovere contou que sorriu em sua direção Disse que se alegrara ao reencontrar o velho parceiro de quarto, e estava sendo sincero, e que não entendera a reação do amigo: tinha ficado pálido, olhos vidrados e de repente virado as costas e saído de forma estabanada, derrubando mesas e esbarrando nas pessoas. Dal Rovere precipitou-se atrás do amigo, mas rapidamente perdeu o contato visual com Humberto que corria desesperadamente pelo meio da rua. Desde aquela noite tentava encontrar o velho colega de infortúnio e finalmente decidira voltar ao hospital. Confessou preferir não tê-lo encontrado caso soubesse de sua recaída. Olhou comovido para Humberto e chorou a sorte do amigo que permanecia alheio a sua presença, aliás, alheio a qualquer presença que escapasse ao universo de seus devaneios. Seria capaz de qualquer sacrifício para interferir no destino do amigo. Jurou à mulher. Mais tarde, já em casa, colocou um disco do Rolling Stones na vitrola. Não queria a imagem devastadora que tivera do amigo naquela tarde, preferia lembrar-se dele como o sósia do Keith Richards. Dal Rovere lembrava de como tinha sido importante terem sido colegas, talvez amigos, nos momentos mais dolorosos da internação e ficaria mais aliviado ao saber que Humberto não continuaria sozinho em seu quarto; ganharia a companhia de um homem simples, motorista de caminhão betoneira, um suicida.

Hoje:

Tenho dificuldades em entender aquilo que as pessoas dizem. Às vezes é fácil. Às vezes é muito difícil. Não gosto quando exageram. Meu pai sempre fala para eu não exagerar. Não gosto quando me tratam como criança. Tenho vinte e quatro anos. Já tenho corpo de adulto. Tenho bigode bem preto. E bigode não é coisa de criança. Hoje a Sueli me tratou como criança. Eu fiquei bravo com ela e ela me pediu desculpas. Meu pai falou que, quando alguém pede desculpas, a gente deve aceitar. Eu aceitei. Eu falei também que eu queria ir ao museu com todo mundo. Eles combinaram que a gente vai ao museu na quarta que vem. Eu nunca fui a um museu. Por isso eu falei que queria ir. A Sueli disse que eu iria também ao museu. Eu fiquei feliz e disse isso para a Sueli. O doutor Sérgio disse para eu começar a escrever um diário. Por isso eu comecei. Eu não sei para que sirva um diário, mas eu gosto do doutor Sérgio e por isso eu comecei o diário mesmo sem saber para que ele sirva. A Sueli disse que as coisas não precisam servir para alguma coisa. Eu acho que ela exagerou, pois meu pai sempre fala que é importante que eu sirva para alguma coisa. A Sueli vive exagerando e eu não gosto disso. Mas mesmo assim eu gosto dela. Só um pouco. Gosto mais do doutor Sérgio. O doutor Sérgio nunca me trata como criança. Ele falou que eu estou ficando forte. É que ele sabe que eu estou fazendo ginástica na academia. E meu pai falou que quem faz ginástica na academia é para ficar forte. Eu não sei se é assim que escreve um diário. Vou mostrar amanhã para o doutor Sérgio e se ele falar que está certo aí eu vou continuar.

Hoje:

O doutor Sérgio disse que eu estou de parabéns. Eu acho que ele exagerou. Ele me abraçou e disse que era assim mesmo que se escreve um diário, por isso eu estou continuando. Hoje teve lasanha. Eu não gosto de lasanha com carne moída. Meu pai falou que eu preciso comer bem, mas eu não sei o que ele quer dizer quando fala comer bem. Eu separei toda a carne moída e quando a Sueli ficou distraída eu joguei embaixo da mesa. A dona Maria ficou muito brava quando encontrou um punhado de carne moída embaixo da mesa. Ela gritou. Quando ela gritou, eu chorei, pois sempre que alguém grita, eu lembro do meu pai gritando. Eu fico assustado porque uma vez que ele gritou, ele me deu um tapa. Ele exagerou. A Sueli falou que eu tenho que aceitar meu pai como ele é, e eu não entendi o que isso quer dizer. Vou perguntar amanhã para o doutor Sérgio. O doutor Sérgio sabe muita coisa. Eu gosto da Roberta. Quero namorar com ela. Amanhã eu vou falar isso para ela. Quando cheguei em casa meu pai estava conversando com três moças bonitas. Eu não sei por que meu pai estava conversando com as moças já que elas nunca tinham vindo em casa antes e, se elas nunca tinham vindo em casa é por que elas não eram amigas nem de meu pai, nem de mim e nem da minha mãe. Meu pai falou que quando a gente é amigo de alguém a gente vai à casa do amigo. Então eu perguntei para o meu pai por que ele estava conversando com as moças e ele me mandou calar a boca e não me meter na história. Eu acho que ele exagerou, pois eu nem estava falando de história nenhuma.

Hoje:

Meu pai faz muitas reuniões aqui em casa. Ele fala para os amigos dele - eu acho que são amigos dele senão ele não trazia para casa - que podem falar tudo perto de mim já que eu sou débil mental. Eu não sei o que é isso. Amanhã vou perguntar ao doutor Sérgio, ele sabe muita coisa e deve saber o que é débil mental. Meu pai falou para os amigos dele que ninguém iria descobrir nada sobre o que eles fizeram com a nossa empregada. Nunca. Ela era bem bonita. Faz duas semanas que não vem trabalhar, mesmo assim eles falaram que ela ia render uma boa grana lá no Japão. Grana é dinheiro. Eles estavam bebendo e eu acho que eles exageraram.

Hoje:

Às vezes eu não entendo o que as pessoas falam. Hoje, o Douglas falou que eu pareço o Bruce Lee. Acho que ele exagerou. O Bruce Lee é japonês e eu também sou. Meu pai é japonês, mas eu não pareço com ele mesmo eu sendo japonês também. Eu gosto do Bruce Lee. Eu sou o Bruce Lee. Não vou escrever mais, pois tenho que ir para a academia e meu pai falou que eu não poderia levar um caderno para a academia.

Hoje

Eu gosto de vir de metrô, pois tem sempre alguém que quer saber onde fica uma estação do metrô que ele não sabe onde fica. Então eu posso ajudar a pessoa já que eu fecho o olho e aparece o mapa completo do metrô. Aí eu procuro, de olho fechado, onde está a estação que a pessoa perguntou e falo para ela. Aí a pessoa fica feliz, pois sorri e fala obrigado para mim. Aí eu sempre falo: obrigado você. Eu só falo obrigado você porque minha mãe falou que eu tenho que falar obrigado você quando alguém fala obrigado para mim. O doutor Sérgio disse que as coisas que estão nesse diário são muito sérias e que eu não devo deixar meu pai olhar ele, nunca. Eu acho que ele exagerou. Eu perguntei para o doutor Sérgio o que era uma pessoa débil mental e ele falou que era uma pessoa especial. Eu fiquei feliz porque o Bruce Lee também é débil mental porque ele é especial. Por isso pode morar em Hollywood. Só pessoas especiais podem morar em Hollywood e isso quer dizer que lá só tem débil mental. Hoje meu pai falou no telefone que a nossa empregada era uma putinha. Eu acho que ele exagerou já que ela é uma empregada e não uma putinha. Acho que as irmãs dela vão para o Japão também. Meu pai disse que elas iam render uma boa grana. Grana é dinheiro. Depois eu fui para a academia e fiz duas horas de ginástica para ficar mais forte e me defender se meu pai quiser bater em mim como fez com a minha mãe.

Hoje

O doutor Sérgio ficou muito sério depois que leu meu diário. Eu nunca entendo por que as pessoas ficam sérias de repente. A Sueli sempre fica séria de repente. A Roberta não, ela está sempre feliz. Por isso eu gosto dela. Ela nunca gritou comigo. Eu fiz três horas de ginástica na academia e quando cheguei em casa minha mãe estava saindo com sua mala grande. Disse que ia sair de férias. Ela estava chorando. Ela exagerou já que sair de férias é bom e a gente não deve chorar quando acontecem coisas boas..

Hoje:

A Sueli leu meu diário. Não fui eu que mostrei para ela. O doutor Sérgio falou que esse caderno e o meu diário são a mesma coisa. Então ele falou que ia mostrar meu caderno para a Sueli e isso quer dizer que ele ia mostrar meu diário para ela. O doutor Sérgio pegou no meu braço com força e disse para eu prestar muita atenção no que ele ia falar. Ele nem precisava ter falado aquilo, pois eu sempre presto muita atenção nas coisas que ele fala. A Sueli disse bem baixinho, mas eu escutei, que eles deveriam chamar a polícia e eu disse que não queria ser preso e que se a polícia viesse me prender eu iria me defender. Contei que eu faço ginástica na academia e que já sei me defender que nem o Bruce Lee já sabe se defender. Acho que eu exagerei, pois os dois me abraçaram e falaram para eu ficar calmo mesmo eu não estando nervoso.

Hoje:

Eu nem mostrei o diário para o Dr. Sérgio porque hoje cedo eu esqueci meu caderno dentro do carro. O Dr. Sérgio me perguntou se o caderno estava bem guardado e eu respondi que sim. O Dr. Sérgio me beijou. Eu acho que ele exagerou. O Dr. Sérgio nem sabe, mas no carro do meu pai tem alarme. Agora eu já peguei meu caderno no carro do meu pai. Eu não gostei porque ele estava amassado e meu pai sempre fala que a gente não deve deixar as coisas amassadas. Eu estou escrevendo, pois achei que todo mundo estivesse dormindo, e quando todo mundo está dormindo fica bem tranqüilo, mas não está. Meu pai está gritando para eu abrir a porta do meu quarto. Eu não vou abrir porque não gosto quando meu pai grita alto. Ele está batendo na porta do meu quarto. Eu estou com medo. Ele está exagerando. Como eu estou escrevendo e ainda não abri a porta ele continua batendo e o trinco da porta está começando a quebrar. Ele exagerou, pois ninguém deve tentar quebrar a porta da sua própria casa. Acho que o doutor Sérgio e a Sueli vão me levar para Hollywood para eu conhecer o Bruce Lee. Quando eu estiver indo para Hollywood com o doutor Sérgio e a Sueli eu vou decorar toda a lista telefônica de Hollywood para mostrar para o Bruce Lee que eu sou capaz de decorar qualquer coisa, não importa nem o tamanho nem a cor dessa coisa. Agora meu pai está acabando de arrombar a porta do meu quarto. Minha mãe não vai gostar. Acho que ele está exagerando.

Hoje

Minha mãe voltou das férias. Acho que ela exagerou. Hoje fui à festa das Diretas Já na Praça da Sé. O doutor Sérgio falou que o voto é muito importante. Ele disse que muita coisa vai mudar no Brasil a partir de hoje. Acho que ele exagerou. Minha mãe falou que a gente vai reconstruir nossa vida. Eu não sei construir nada. Acho que ela exagerou. Ontem eu matei meu pai. Ninguém nunca vai descobrir que fui eu. Eu exagerei. Eu vou deixar esse diário bem escondido para nunca ninguém achar, nem o doutor Sérgio. Vou enfiar ele no buraco da parede e fechar o buraco. Minha mãe nem se importou que meu pai arrebentou a porta do meu quarto. Ele exagerou. Por isso eu o matei. Ela falou que nós vamos morar em outra casa bem longe daqui. Acho que ela exagerou. Quero morar em Hollywood. Eu vou sentir saudades da Roberta. Eu vou convidar a Roberta. O doutor Sérgio falou que a gente precisa ser forte. Eu faço ginástica na academia todo dia e estou ficando bem forte. A Sueli estava chorando na hora do almoço. Acho que ela exagerou porque a comida estava bem gostosa. Depois que eu esconder o diário eu não vou escrever mais. Hoje eu aprendi a cantar o hino da Coréia.

Um Palhaço Na Boca Do Vulcão

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