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TÍTULO: Doença de ator motiva 'sit-down tragedy'

MÍDIA: Folha de São Paulo

AUTORIA: Iara Biderman

PUBLICAÇÃO: 21/11/2014

FONTE: Folha de São Paulo

 

O ator Nando Bolognesi, 45, diz que nunca gostou de comédia stand-up, mas se deu conta de que poderia estar fazendo algo no gênero com o espetáculo "Se Fosse Fácil, Não Teria Graça".
 
Resolveu definir a peça, em que fica a maior parte do tempo sentado, como "sit-down tragedy". No espetáculo, ele conta sua história, marcada pela descoberta, aos 21 anos, de que era portador de esclerose múltipla, doença que causa perda progressiva de movimentos.
 
Isso seria a parte trágica, não fosse Bolognesi um palhaço profissional. "A última coisa que queria fazer era uma peça lacrimosa, tipo ai, coitadinho'", diz.
 
 
Divulgação
Ator Nando Bolognesi no espetáculo 'Se Fosse Fácil Não teria Graça'
 
 
Nando usa muletas e cadeira de rodas. Mas segura o pique nos 80 minutos da peça, que inclui uns 10 minutos de "stand-up", quando, em pé, assume o personagem do palhaço Comendador.
 
O personagem surgiu no grupo "Jogando no Quintal", em que atuou ao longo de quase uma década.
 
Quando Bolognesi entrou para a Escola de Artes Dramáticas da USP, aos 25 anos, já tinha o diagnóstico de esclerose múltipla. "Fiquei na minha porque não queria ser café com leite. Fiquei sendo só o cara meio descoordenado".
 
A descoordenação virou trunfo quando descobriu a linguagem do palhaço.
 
Já no último ano do curso, depois de ter trabalhado em filmes como "Bicho de Sete Cabeças" e "Carandiru", participou de uma oficina de palhaços. "No primeiro dia, a diretora falou que o palhaço é aquele cara meio desadaptado. Boa: sou eu", conta o ator.
 
Além do Jogando no Quintal, Bolognesi passou pelos Doutores da Alegria e criou um espetáculo solo, "Desabafo".
 
"Se Fosse Fácil, Não Teria Graça" surgiu depois de ele ter passado por um transplante de medula, em 2009. O tratamento experimental acabou com os surtos da doença, mas piorou o enrijecimento das pernas.
 
Em 2012, "numa fase braba de falta de grana", recebeu de um amigo a proposta de escrever o livro, "Um Palhaço na Boca do Vulcão" (editora Grua, 224 págs.), que foi a base do roteiro da peça.
 
Bolognesi imaginava vender o espetáculo para eventos corporativos. "Mas meus amigos que assistiram falaram que não era uma palestra para empresas, era teatro."
 
Por causa da produção, Nando foi convidado a se apresentar no Festival de Teatro de Curitiba deste ano.
 
"Eu me senti como o aluno do fundão da Escolinha do Professor Raimundo, como me descobriram aqui?", afirma. "Mas me convenci de que estou fazendo teatro mesmo."
 
SE FOSSE FÁCIL, NÃO TERIA GRAÇA
QUANDO ter., às 21h; até 9/12
ONDE Teatro Eva Herz, av. Paulista, 2073, tel. (11) 3170-4059
QUANTO R$40
CLASSIFICAÇÃO 12 anos

TÍTULO: Festival põe cenas da vida no palco

MÍDIA: Gazeta do Povo

AUTORIA: Helena Carnieri

PUBLICAÇÃO: 16/03/2014

FONTE: Gazeta do Povo

 

Cinco espetáculos da mostra principal do evento partem de relatos de celebridades ou de gente vivendo no limite em seus enredos

Duas estrelas da música, um artista de grande esforço, uma política que marcou a história da Alemanha e um grupo de transformistas do Rio Grande do Sul e do Ceará tiveram suas vidas esmiuçadas em espetáculos que compõem a grade principal deste Festival de Teatro, que começa no próximo dia 26. A presença de personagens reais certamente é uma tendência nos palcos e ocupa um sétimo da Mostra Contemporânea do evento.

Musicais contando a vida de celebridades não são exatamente novidade, mas Jim promete inovar na forma ao colocar em cena apenas dois atores, Eriberto Leão e Renata Guida, acompanhados por três músicos que executam 11 canções da banda The Doors. Jim Morrison (1943-1971) é a obsessão do personagem de Leão, um rapaz perturbado que pautou seus ideais pelos do astro e agora está desiludido, prestes a tirar a própria vida. Em meio ao conflito, que envolve um encontro com a garota vivida por Renata, o ator canta as músicas que, conforme conta, o levaram a se interessar pela atuação, aos 18 anos.

Já a peça de dança-teatro Paixão e Fúria: Callas, o Mito, que estreia nacionalmente em Curitiba, inova ao contar a história da diva da ópera (1923-1977) por meio de coreografias. Na trilha sonora, sucessos conhecidos em sua voz, como “Casta Diva”, da ópera Norma, e árias de Madame Butterfly e La Traviatta.

O espetáculo, encenado por José Possi Neto, não personifica Callas em uma atriz, mas espalha o espírito de sua arte entre 20 bailarinos da paulistana Studio3 Cia de Dança. Uma das características da artista: determinação, ainda mais tratando-se de sua imagem. “Ela era uma pessoa grande, mas quando viu Audrey Hepburn, decidiu que queria ser como ela. E emagreceu mesmo, acabando até mesmo como ícone da moda”, contou à Gazeta do Povo o coreógrafo Anselmo Zolla.

Saindo das coxias e entrando nas trincheiras da militância pacifista da Primeira Guerra Mundial, a filósofa Rosa Luxemburgo foi a escolha da atriz Martha Kiss Perrone para abordar uma personagem real. Ela faz isso de forma intimista, ao lado de outras duas atrizes, com quem divide a interpretação de cartas escritas pela fundadora do que se tornaria o Partido Comunista Alemão, em Rózà. O vídeo, o canto e a música completam os elementos do cenário-instalação.

 

Limítrofes

A categoria de não celebridades entre as personagens biográficas do festival leva ao palco histórias de pessoas vivendo no limite. Em BR-Trans, a tensão do universo transexual, em que o ator Silvero Pereira dá voz a relatos colhidos por ele em casas noturnas e ruas de Porto Alegre e Fortaleza, é misturada a fatos de sua própria vida.

Esse é o terceiro trabalho dele com uma arte socialmente engajada, e agora é o que deseja fazer para sempre, conforme contou à reportagem: “Aprendi que o teatro pode ser um instrumento, e tenho ouvido de pessoas do público que, depois de assistir, começam a pensar nessas questões”.

Por fim, Se Fosse Fácil, Não Teria Graça é o único espetáculo dessa série totalmente baseado na vida do ator em cena. Nando Bolognesi, que participou dos Doutores da Alegria e sofre de esclerose múltipla há 25 anos, ouviu de amigos a sugestão de criar seu próprio show, em que o fato de ficar sentado a maior parte do tempo seria autojustificado. “Os personagens que eu podia fazer no teatro foram ficando mais restritos. Comecei a peça como uma necessidade devido à limitação e ela acabou sendo motivo de reflexão”, disse à Gazeta do Povo. No monólogo, ele conta sua história em tom de humor – numa comédia realista, como exigem temas saídos da vida.

 

TÍTULO: Espaços públicos de autoexposição

MÍDIA: Gazeta do Povo

AUTORIA: Luciana Romagnolli

PUBLICAÇÃO: 14/03/2014

FONTE: Gazeta do Povo

  

Atores compartilham vivências íntimas e observações em BR-Trans e Se Fosse Fácil, Não Teria Graça

O palco é genuinamente um espaço de exposição. Em alguns casos, porém, a exibição se torna mais íntima e radical. O Teatro Paiol recebe dois solos que desnudam questões pessoais dos atores em cena. Em BR-Trans, o cearense Silvero Pereira compartilha uma pesquisa sobre travestis e transformistas, enquanto fala da própria sexualidade. Já Se Fosse Fácil, Não Teria Graça é um relato biográfico do paulista Nando Bolognesi, portador de uma doença degenerativa.

Apesar da procedência cearense, BR-Trans integra artistas de diversos estados do país. O espetáculo nasceu em Porto Alegre, onde o ator e dramaturgo Silvero Pereira realizou uma residência artística. Ele se travestiu para circular de teatros a padarias, acompanhar a prostituição de travestis nas ruas e shows de transformistas.

“O espetáculo é um revelar-se. Nele sou capaz de abrir minhas experiências, tentar levar o espectador aos ambientes que percorri, além de expor questões bem pessoais como a minha sexualidade na infância, na família e na sociedade”, conta. 

Há dez anos, Pereira pesquisa travestis e transformistas no Ceará, com o coletivo teatral As Travestidas. “A capital gaúcha paga três vezes melhor por um show de transformista do que Fortaleza. Além disso, das experiências que realizei com os gaúchos, as travestis são mais aceitas e respeitadas no dia a dia, seja em um supermercado, numa galeria de arte, num teatro ou mesmo nas ruas”, constata.

 

Alegria

O solo de Nando Bolognesi também tem esse caráter de compartilhamento de experiência. Em 1990, aos 21 anos, ele recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla. Pouco tempo depois, começou a carreira de ator pela EAD – Escola de Arte Dra­mática da USP. “Na época, não visualizava o teatro como opção para contrabalancear a doença”, relembra.

No início, Bolognesi fazia muitos espetáculos e publicidade. Com o avanço da doença, a movimentação foi ficando mais restrita. O encontro com a paulista Cristiane Paoli-Quito, pesquisadora do universo do palhaço, abriu a ele um novo caminho na pele do clown Comendador Nelson. “Fiz dois filmes: Carandiru e O Bicho de Sete-Cabeças, mas sentia dificuldade pelas minhas limitações físicas. Essas limitações acabaram se afinando com a proposta de palhaço.”

Há algum tempo, Bolognesi teve de descansar o palhaço, porque passou a usar duas bengalas. O solo Se Fosse Fácil, Não Teria Graça é seu retorno aos palcos. Ao criar o espetáculo, ele respeitou suas limitações e investiu na relação direta com a plateia.

O ator define o trabalho como “a primeira seat down tragedy” – o contrário de uma stand-up comedy. “As reflexões que essa trajetória me trouxe são feitas sempre com bom-humor. Não quero dramalhão, mesmo porque não levo minha doença desse modo”, diz.

 

TÍTULO: Entrevista exclusiva com Nando Bolognesi

MÍDIA: Periscópio - Jornal do Povo

AUTORIA: Periscópio - Jornal do Povo

PUBLICAÇÃO: 21/01/2014

FONTE: Periscópio - Jornal do Povo

 

Formado em economia pela USP e história pela PUC-SP, Luiz Fernando Bolognesi, 45 anos, não poderia ter seguido outro caminho que não fosse o das artes. Ator e palhaço profissional (integrou os grupos “Doutores da Alegria” e “Jogando no Quintal”, interpretando o Palhaço Comendador Nelson), Nando, como prefere ser chamado, viu sua vida se transformar aos 21 anos, quando foi diagnosticado com esclerose múltipla.

“Tudo o que acontece na vida é uma questão de oportunidade”

A doença, degenerativa, vem limitando os movimentos de seu corpo, mas não a vontade de se entregar ao trabalho e à vida. Nando, que atuou em premiados filmes como “Bicho de Sete Cabeças” e “Carandiru”, tem se dedicado atualmente ao que chama de “Plano Z” profissional. Além de contar sua história no espetáculo “Se fosse fácil não teria graça”, o artista deve lançar ainda este ano um livro sobre suas memórias.

Em 2009, Nando decidiu trocar a paisagem urbana de São Paulo pela tranquilidade de Itu, cidade onde passou parte de sua infância. O ator recebeu a reportagem do PERISCÓPIO com exclusividade em sua casa, no Condomínio Portal de Itu II, onde mora desde 2010 com sua esposa, a atriz Élida Marques, e seu filho, Leonardo, de 8 anos.

JP – Como a dramaturgia apareceu na sua vida?

Nando - Quando me formei em economia, ganhei do meu pai uma viagem de um ano pela Europa. Eu tinha 21 anos, era um moleque e estava em uma fase muito reflexiva da minha vida, prestes a entrar no mercado de trabalho. Quando você viaja por muito tempo para fora do país, você fica com aquela sensação de estranhamento em relação a tudo. Eu olhava aquelas multidões dentro do metrô e achava que a humanidade tinha perdido um pouco da sintonia com a história, que as pessoas não eram felizes em suas rotinas. Foi aí que eu cheguei à conclusão de que não queria levar aquela vida, mas sim um trabalho que não me tornasse escravo dessa civilização. Na época, como achava que quem vivia à margem disso eram os artistas e sempre tive facilidade para falar em público, decidi ser ator.

Olhando para minha história, acho que isso tudo foi uma justificativa que eu inventei para mim mesmo, pois sempre quis ser ator. Posteriormente, quando voltei ao Brasil, fui dar aula de história e, paralelamente, me preparei para entrar na EAD (Escola de Arte Dramática, ligada à Universidade de São Paulo). Quando entrei, fiquei encantado e me perguntei como havia conseguido ficar tanto tempo sem aquilo.

JP – Em 1990, você foi diagnosticado com esclerose múltipla. Como chega para um jovem o anúncio de uma doença tão pouco conhecida no país?

Nando - A esclerose era totalmente desconhecida por mim. Aliás, eu digo que a ficha está caindo até hoje. O médico olhou os exames e disse que eu tinha uma doença chamada esclerose múltipla, e que ela se manifestava por surtos. Quando isso acontecesse, eu deveria tomar cortisona. Para mim, estava tudo certo, pois se eu passasse mal, apenas deveria tomar um remédio e ficaria bem de novo. Botei minha mochila nas costas e voltei para a Europa fazendo piada sobre o assunto.

Hoje em dia, você entra na Internet e encontra várias informações, mas na época não tinha nada disso. Eu tive outros surtos durante a viagem e, quando voltei ao Brasil, no final de 1991, foi que comecei a entender melhor as coisas. Aí é que eu comecei a notar as sequelas da doença e que a situação não era tão simples. Todo esse processo de descoberta foi muito lento. A notícia de que eu tinha esclerose múltipla não foi como uma revelação de novela mexicana, mas sim como algo suave e gradual.

JP – Qual é o limite que a esclerose múltipla impõe ao paciente?

Nando - A esclerose tem uma evolução muito particular em cada caso. Tem gente que tem a doença e, em 5 anos, já está acamado. Outros têm um surto a cada 15 anos. Então é difícil explicar qual é o limite de todos os pacientes. No meu caso, 90% dos meus surtos atingiram as pernas; outros tantos afetaram as mãos e um pouco da visão.

Minhas maiores perdas foram em relação à sensibilidade e à coordenação. É como se eu usasse uma luva cirúrgica o tempo todo. Eu ponho a mão no bolso, mas não sei se estou pegando um isqueiro, uma caneta ou uma nota de papel. Antes da doença, eu jogava bola e corria, enquanto hoje eu ando com duas muletas. Eu brinco que, enquanto as pernas levam as pessoas, no meu caso sou eu quem levo as minhas pernas, pois tenho que fazer força para carregá-las.

JP – Mesmo diagnosticado com a doença, você continuou trabalhando como ator, inclusive em filmes premiados. Como foi possível conciliar o tratamento com estes trabalhos?

Nando - Quando fui diagnosticado com a doença, não havia tratamento, apenas a medicação com cortisona. Quando eu tinha surto, me internava por algumas horas, tomava medicação e saía. Depois, fiz outro tratamento por sete anos, em que eu mesmo me aplicava uma injeção subcutânea, com o objetivo de espaçar os surtos. Eram coisas do meu dia a dia, que eu havia incorporado à minha rotina. Eu perdia algumas horas, mas conseguia levar adiante meus compromissos.

Em 2009, no entanto, não consegui trabalhar, pois a doença se agravou e eu precisei realizar o transplante de medula, que é um tratamento mais forte. Na época, tive que me submeter a uma série de exames e precisei ficar parado por alguns meses.

JP – Apesar de ter proporcionado muitas perdas, a esclerose múltipla te trouxe algo de positivo?

Nando - Eu tenho a sensação de que tudo o que acontece na vida é uma questão de oportunidade. Daí pra frente, você faz o que você quiser com elas – e eu aprendi um monte de coisa com a esclerose. Há um tempo, eu comecei a perceber que havia criado um “duplo” de mim mesmo, como se fosse um segundo Nando, sem esclerose e preso nas lembranças da época em que eu não tinha a doença. Depois de muito tempo eu passei a entender que isso não existe. Este sou eu e eu tenho esclerose; não tem como eu me separar disso.

Nestes 25 anos, a ficha não para de cair. O primeiro grande aprendizado foi ligado à humildade. Com a doença, eu passei a ter a visão do “outro”, pois o doente é sempre o outro. É o tipo de coisa que nunca achamos que vai acontecer conosco. Eu tive que me reconhecer como o outro; alguém diferente. De nada adianta eu ser uma pessoa boa, gentil com as mulheres ou ter um tio deputado. Eu tenho esclerose e nada vai resolver isso. A doença me ensinou a não dramatizar tanto a vida.

JP – É possível dizer que a arte foi – e continua sendo – uma aliada no seu tratamento?

Nando - A arte me ajuda a estar no mundo e a ser quem eu sou. Eu tenho essa necessidade de me expressar; eu preciso fazer isso para me sentir bem. É algo fundamental não apenas para o meu tratamento, mas também para toda a minha vida.

JP – De onde surgiu a ideia de se mudar para Itu?

Nando - Viver em São Paulo é muito legal, mas também é muito difícil. Por muito tempo, eu e Élida alugamos uma casa em Gonçalves, no sul de Minas, para descansar e passar férias. Sempre que nós voltávamos de viagem e víamos a cidade de São Paulo no horizonte, nos batia uma crise. O meu trabalho e os meus compromissos estavam na capital, mas eu continuava morando lá por inércia.

Além disso, a minha família é de Itu; meu pai e meus tios nasceram aqui. Aliás, eu cheguei a morar nesta cidade dos 2 ao 6 anos. As minhas lembranças são de muita diversão, pois passei muitas férias com os meus primos na casa da minha avó. Então Itu sempre foi uma referência para mim, além de ser próxima a São Paulo.

Aos poucos fomos amadurecendo a ideia de sair da capital, até que nasceu nosso filho. Este era o motivo que faltava para tomarmos de vez a decisão. Em julho de 2009 pus o apartamento de São Paulo à venda e viemos morar provisoriamente em uma chácara que meu pai tinha aqui, até terminarmos de construir nossa casa, em agosto de 2010. Eu estou muito feliz morando em Itu e achando tudo muito legal. Cada vez que vou a São Paulo, volto ainda mais contente para cá. Acho que eu sempre fui um cara do interior, mas não sabia.

JP – Você está prestes a dar início a uma nova etapa da sua vida profissional. Qual é esse projeto?

Nando - Depois que realizei o transplante de medula, parei de ter surtos, mas os sintomas da doença pioraram. Eu não consegui seguir nem com a carreira de ator, nem com a de palhaço. Como precisava trabalhar e ganhar dinheiro, prestei um concurso público, mas apesar de aprovado, perdi a vaga na perícia médica (o que o fez recorrer à Justiça contra a Prefeitura de São Paulo). Foi aí que, depois de tantas mudanças na minha carreira, dei início ao que eu chamo de “Plano Z” profissional.

Na ocasião, vários amigos me falaram que minha história era muito bonita e que eu deveria montar um espetáculo sobre esta trajetória. Quando me vi impossibilitado de assumir meu cargo público e sem dinheiro, passei a pensar com firmeza na hipótese e, em agosto do ano passado, montei o espetáculo “Se fosse fácil não teria graça”. Além de ser uma apresentação para o público em geral, ela passou a ser muito bem recebida pelo mundo corporativo, pois se trata de uma história de superação. Por enquanto, realizei nove apresentações em salas alternativas de São Paulo, e outras como palestra motivacional para empresas. Meu trabalho está sendo muito bem aceito pelo público, que vai do riso ao choro durante o espetáculo.

Hoje o trabalho já está amadurecido e rodando em algumas cidades a convite de empresas. Estou buscando incentivo e patrocínio para levar a apresentação para o grande público, pois ainda precisamos de recursos para aluguel de teatros, viagens e cachês, por exemplo.

Além de estar trabalhando com a apresentação, estou escrevendo minha história em um livro, que deve lançado em maio, pela Editora Grua.

JP – Existe a expectativa de trazer a apresentação para Itu?

Nando - Se eu tiver a oportunidade, terei o maior prazer de me apresentar aqui. Por enquanto só estive em salas de teatro de São Paulo, mas pretendo viajar bastante com o espetáculo, seja para contar a história para o público em geral ou para empresários.

JP – Você já pensou em escrever um livro sobre sua história?

Nando – Sim. Este livro já está sendo escrito, inclusive. Trata-se de uma obra de memórias, onde eu relato alguns momentos da minha vida. Atualmente estamos em fase de revisão, e o lançamento deve acontecer em maio, pela Editora Grua.

JP – Como está o Nando Bolognesi de hoje?

Nando - Eu estou vivendo uma fase muito especial da minha vida. A princípio, a ideia de prestar um concurso público teve que ser muito bem digerida, pois era uma coisa que me incomodava, já que acreditava que deixaria de fazer o que realmente gostava. O fato de eu ter perdido a vaga, no entanto, me fez voltar às artes, quase como uma retomada da minha vida no processo criativo.

Tenho visto ressurgir meu caminho artístico, tanto por meio do livro, quanto pela apresentação que está sendo produzida. Além disso, recebi um convite de uma amiga para participar de um espetáculo como palhaço, entre junho e agosto, em São Paulo. A minha perspectiva para este ano não poderia ser melhor.

 

TÍTULO: Nando Bolognesi revela como mantém o otimismo após ter esclerose múltipla.

MÍDIA: Folha de São Paulo

AUTORIA: Mônica Bergamo

PUBLICAÇÃO: 29/12/2013

FONTE: Folha de São Paulo

  

Se fosse fácil...

...não teria graça, diz Nando Bolognesi nas palestras (ou "sit down tragedies") em que faz rir e chorar ao revelar como mantém o otimismo depois de abandonar as carreiras de ator e palhaço por ter esclerose múltipla

O Nando passou quatro meses dando carona para a Élida, uma das colegas com quem atuava em uma peça de teatro e que tentava conquistar imaginando estar diante do amor da sua vida. Para seduzi-la, ele seguia a receita do italiano Casanova: "Não há mulher que resista a assiduidade e atenção".

Naquela noite de 1994, os dois enfim "se pegaram" em uma festa. E Nando estava levando a jovem para a chácara de seu pai, em Itu. Já pensava em "abrir um vinhozinho, pegar uma sauninha", quando sentiu "vontade de fazer xixi". Se segurou o quanto pôde. Ao sair do carro, na porta da casa, sentiu "um líquido quente na perna". Tentou disfarçar. Mas os cães da família "vieram com o focinho no meio da minha perna". Arrasado, ele se desculpou. E foi para o chuveiro.

De repente, a porta do banheiro range. Era Élida: "Posso tomar banho com você?".

"E a gente tá tomando banho há 19 anos", diz Luiz Fernando Bolognesi, 45, ator, palhaço profissional, marido da Élida, pai do Leonardo, que vive essa e outras histórias tragicômicas desde que, em 1990, foi diagnosticado com esclerose múltipla. A doença, degenerativa, vem roubando os movimentos de seu corpo. E traz incômodos adicionais como incontinência urinária.

Em 2014, Nando pretende ganhar dinheiro revelando, no teatro, as cachaças que tomou e os tombos que já levou. É o que chama de "plano Z" profissional: por causa da doença, teve que abandonar a carreira de ator (caía no palco) e mais tarde a de palhaço (integrou os grupos Doutores da Alegria e Jogando no Quintal até quando conseguia andar apenas de bengala; hoje, usa muletas). Prestou concurso público. Passou. Mas foi reprovado na perícia médica.

Diante das portas que se fechavam, resolveu retomar projeto antigo: se apresentar sozinho no palco, falando dos percalços da própria vida. "Eu nunca gostei de stand-up comedy. Resolvi fazer a sit down tragedy'." As primeiras apresentações, na Faap e num teatro na Pompeia, lotaram com a divulgação entre amigos do Facebook. Prepara outras tantas para 2014.

Nelas, que terminam sempre entre choros e gargalhadas, Nando conta que, até os anos 80, era o típico jovem da classe média alta de SP: filho de executivo, era o caçula de dois irmãos (o mais velho é o cineasta Luiz Bolognesi, casado com a diretora Laís Bodanzky). Estudou no Colégio Santa Cruz. Entrou em economia na USP e em história na PUC. Vivia da mesada do pai.

Virou "um aluno bem medíocre", "deslumbrado com a liberdade" de que gozam os universitários de seu círculo social. Até queria mudar o mundo. Mas gostava mesmo era de jogar basquete no clube Paineiras, remar, correr e jogar futebol. "Me dedicava aos esportes e às noitadas."

Aos 21 anos, recém-formado, ganhou um presentão do pai: uma passagem para rodar a Europa e "espairecer" antes de pegar no batente.

"Foi uma coisa muito intensa, uma descoberta, um sonho", lembra. Arranjou emprego numa "relojoariazinha vagabunda no metrô", em Londres. Refletia, escrevia um diário. Começou a achar que a civilização "estava sendo escravizada". Decidiu que seria ator.

E, claro, encontrou logo um campo e amigos para jogar futebol. Foi então que deu o primeiro tropeço. "Joguei mal, chutei o chão." Num outro dia, ao correr para pegar o metrô, quase caiu da escada rolante. "Pensei: Que esquisito'. Mas a viagem estava tão incrível que eu não tinha tempo para ficar em crise."

Em Paris, caiu numa sarjeta e não conseguiu se levantar sozinho. Na Itália, teve dificuldades para preencher a ficha do hotel. Não conseguia apertar o frasco do desodorante. Procurou um hospital. Queriam interná-lo. Voltou ao Brasil. E teve o diagnóstico da esclerose múltipla.

O médico disse à família que, mesmo com a doença, ele poderia levar uma vida normal. Chegou a voltar para a Europa e a viajar com um amigo de bicicleta pela Holanda. Amarrava o pé que estava sem força no pedal. Levava tombo atrás de tombo. Mas a vida seguia, bela e intensa. E ele, "desencanado".

Só voltou a se preocupar num dia em que, na Bélgica, não conseguiu mexer um dos pés. "Senti então a mesma sensação de quando fui à boca do vulcão Stromboli, na Itália, e começou uma micro-erupção. Não era medo. E sim um grande respeito. Vi que me confrontava com uma coisa muito maior. Tive a mesma sensação de pequenez."

A segunda "ficha que caiu" foi quando soube que a incidência da esclerose era de um caso para cada grupo de 100 mil habitantes no Brasil. "Era como seu eu estivesse no Morumbi, na final do Corinthians e São Paulo, e anunciassem que alguém ali teria a doença. A gente sempre acha que as coisas acontecem com o outro. Aí seria alguém do setor amarelo. Da fila J... eu! Cara, eu sou o outro. Tá acontecendo comigo!"

"E não adianta eu ter pai bem relacionado, tio deputado, ser bom aluno. Nada disso vai resolver", segue ele. "As coisas são como elas são. Não tem merecimento, sentido da vida. As coisas são e pronto. A gente é que pendura os significados nelas. A vida tá aí, bicho. A vida tá aí e você não é diferente de ninguém. Eu sou eu só pra mim. Para os outros 6 bilhões de pessoas do mundo, eu sou o outro. E, se acontece com o outro, acontece comigo também." Virou o pior jogador do time de futebol. "De repente, eu era aquele cara com quem eu sempre tinha gritado. Foi um trabalho de humildade."

Parou de beber e passou a se alimentar melhor. Entrou na EAD (Escola de Artes Dramáticas) da USP. "Fiquei encantado. Como eu tinha vivido sem aquilo por tanto tempo?" Mas logo veio um novo tombo. Agora em público, na primeira peça em que atuou.

"Baita sucesso, casa cheia", lembra. Ele entra em cena. E se esborracha no chão: as sequelas da doença, que tiram a força das pernas, já se manifestavam de forma contundente. "Aí fiquei mal: Caramba, bicho. Será que a esclerose vai me impedir de ser ator?'." Seguiu na profissão com essa dúvida.

Chorava no quarto, e só se fortalecia ao ouvir "Maria, Maria", de Milton Nascimento e Fernando Brant, na voz de Elis Regina. "É isso aí, cara. Sou corintiano, é preciso ter força, é preciso ter gana'. Virou ritual: quando estava down', eu falava Elis, Elis, vamos lá'. E botava o disco."

No último semestre da EAD, a luz surgiu no fim do túnel: Nando fez oficina de palhaço. E se identificou com "aquela figura que tropeça, que faz a coisa errada, que é inapto, chega em último. Porque eu sempre fui inadequado. Na economia, usava brinco. Na história, era o burguesinho que tinha carro. Na EAD, o careta, que usava camisa por dentro da calça."

Nascia o palhaço Comendador Nelson. Na "pele" dele, Nando visitou hospitais com os Doutores da Alegria. Fez sucesso com a companhia Jogando no Quintal. Atuou em hospitais psiquiátricos na dupla Fantásticos Frenéticos. "Eu sempre falo: as soluções são simples e óbvias. A gente não as vê porque fica se martirizando." Uma das coisas que a profissão de palhaço ensina, diz, é a "desdramatizar o mundo". Fez vários tipos de terapia --antroposófica, xamânica, com um pai de santo.

Em 2005, começou a piorar. Passou da cortisona em comprimido para intravenosa. Em seguida, quimioterapia. Em 2009, se submeteu a um transplante de medula. Ficou 45 dias internado. Tinha "sonhos intensos, muito malucos, muito fortes".

A doença estacionou. Mas a fadiga crescia. Da bengala, passou a usar muletas. A profissão de palhaço também chegava ao fim. "Foi aí que falei: Bom, vou prestar concurso publico'." À euforia do sucesso nas provas para ser auditor fiscal sobreveio a reprovação na perícia médica, que o fez recorrer à Justiça contra a Prefeitura de SP.

E é por isso que agora Nando, que hoje vive em Itu, partiu para as palestras. Ansioso, mas achando que tudo vai dar certo.

E essa certeza ele tem desde que, numa viagem de avião, leu num livro da francesa Simone de Beauvoir: "É preciso saber aguardar a simplicidade dos fatos".

"Eu li aquilo e me lembrei imediatamente das provas de química da época do colegial. Eu passava dois meses assustadíssimo. Era um terror. E a prova durava só 50 minutos -- e era infinitamente mais simples do que os dois meses que eu passara sofrendo por causa dela. Realmente as coisas são mais simples do que parecem. A gente é que cria fantasia sobre elas."

 

Um Palhaço Na Boca Do Vulcão

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